Grandes injustiças do Oscar: Forrest Gump (1994)

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Eu devo ter sido a última pessoa do planeta a ter assistido Forrest Gump- O contador de Histórias (Forrest Gump). Só fui fazer isso há uns dois dias enquanto zapeava pelo Netflix. Quando eu era criança havia muito burburinho em torno desse filme, especialmente por todos os seis Oscars que ganhou, incluindo melhor filme e melhor ator pro Tom Hanks.

Ele não chamou a minha atenção por muitos anos, mesmo com todos os fãs ao meu redor e sendo exibido constantemente na Globo. Até que, mais recentemente, eu passei a ter contato com opiniões bem distintas. Gente que achava o filme conservador, hipócrita, americano demais e moralista. Aí sim me deu alguma curiosidade de ver, e cá estou eu.

Antes de falar do filme propriamente dito, deixa eu só lembrar quem eram os outros concorrentes ao Oscar de melhor filme em 1995:

Um Sonho de Liberdade (The Shawshank redemption)

um sonho de liberdade

Pulp Fiction-Tempo de Violência (Pulp Fiction)

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Quatro Casamento e um Funeral (Four Weddings and a Funeral)

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Quiz Show

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Assim, como Forrest Gump, Um sonho de liberdade também era um “Oscar bait” ou “isca de Oscar”, aqueles filmes que já são feitos com os padrões que costumam agradar a academia. A gente  reconhece um de longe.  Geralmente possuem um tema mais “sério”, mas não tratado de uma forma tão densa que o público possa ter problemas pra compreender.

Os personagens lidam com algum tipo de dificuldade (doença mental, prisão, deficiência física, guerra, ser mãe solteira, etc) e lutam com todas as forças pra superar seus obstáculos, numa trama que costuma ser de época (aí dá pra garantir pelo menos os prêmios de direção de arte, figurino e fotografia).

Bônus se tiver como pano de fundo a 2ª Guerra Mundial. Bônus duplo se tiver cena de corridinha na chuva. Ah sim, atrizes bonitas têm que ficar feias e não espere menos de duas horas de duração. Mesmo assim, não quer dizer necessariamente que sejam filmes ruins. Um sonho de liberdade mesmo é bem bacaninha, e até mais merecedor desse Oscar que o filme do Tom Hanks.

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Kate Winslet demorou, mas aprendeu: é só colocar o Holocausto no meio que o prêmio tá na mão

Quatro Casamentos e um Funeral é uma comédia romântica inglesa bem acima da média, como costumam ser as comédias românticas inglesas, mas todo mundo sabe que só estava ali pra constar. Quiz Show eu não vi e nem conhecia até ter resolvido fazer essa lista. Já Pulp Fiction seria a minha escolha, afinal, de todos aqueles filmes ali (dos que eu assisti, pelo menos) era o único que acrescentava alguma coisa, e fazia a diferença.

Como todos sabemos, entretanto, foi Forrest quem abocanhou esse e mais outros tantos prêmios.

Vamos ao filme então.

É improvável, mas pode ser que você  não tenha visto esse filme. Neste caso, melhor ir parando a leitura, porque vêm aí muitos muitos SPOILERS

Achei bastante simpático colocar o Forrest pra contar a sua história num ponto de ônibus, em que inicialmente as pessoas não dão muita bola, mas vão se interessando à medida em que os fatos mais emocionantes vão acontecendo. Eu mesma eu sou uma boa ouvinte de ônibus, já ouvi relatos inacreditáveis, e eu  me divirto bastante prestando atenção nas conversas alheias.

Começando do começo, temos a infância de um menino com deficiência intelectual e a sua mãe (Sally Field) que faz tudo pra que ele seja incluído. A aparente  lição é  que você pode estar destinado a grandes feitos, mesmo tendo suas limitações. Muito justo. Do que essas pessoas que detestam o filme estão reclamando afinal?

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Forrest vai inacreditavelmente participando da maioria dos grandes eventos da história americana dos anos 50 a 70. A graça é que é tudo involuntário, e ele nem entende direito o que está acontecendo. Não vi nada de ruim nisso, apesar de ter gostado mais do resultado em Zelig (1983) do Woody Allen.

Daí o filme chega na Guerra do Vietnã, no movimento hippie e nos Panteras Negras. A coisa fica estranha, muito estranha. Enquanto que Forrest tem uma trajetória toda “certinha” (volta premiado da guerra sem nenhuma lesão grave, vira jogador de futebol americano, encontra presidentes, se torna milionário) sua paixão de infância faz todo o contrário. E o filme nos mostra que isso é muito ruim.

Jenny (Robin Wright) conheceu Forrest por ter sido a única criança de um ônibus escolar a aceitar sentar ao lado dele. Legal né? Só que mal sabia ela que todos que entrariam em contato com aquele garoto teriam uma morte bem sofrida, uma amputação ou no mínimo um impeachment.

Sério, todo mundo se f**eu. Elvis Presley, John Lennon, John Kennedy, Nixon, a própria Jenny, os colegas de Vietnã (Bubba e Tenente Dan) e a mãe do dito cujo. Eu dou toda a razão agora pra aqueles que queriam manter distância.

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Eu ofereci lugar ao Forrest no ônibus e fui uma das primeiras pessoas a morrer de AIDS

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Sentei ao lado do Forrest no ônibus e acabei sangrando até a morte no Vietnã

Fui criado pelo Forrest, passei a ver gente morta e minha carreira foi pro saco

Fui criado pelo Forrest, passei a ver gente morta e minha carreira foi pro saco

Tá certo que a garota já tinha sua própria cota de problemas antes mesmo de conhecer o protagonista da história, já que era órfã de mãe e fica implícito que ela passou a infância sendo abusada pelo pai. Um trauma, aliás, de que ela nunca conseguiu se livrar e nos leva a boa parte das suas ações no filme.

Assim como muitas vítimas de abuso sexual, Jenny passou a vida sofrendo e tentando se punir. Ela se envolve em relacionamentos destrutivos e, a partir de certo momento, aparece usando cocaína.

A questão é que o filme coloca isso no mesmo balaio de  atitudes dela que  são positivas (engajamento político, ter virado hippie e apoiar o movimento negro) e outras em que eu não vejo problema nenhum (ter posado pra Playboy, ter tido muitos parceiros durante a vida e feito parte da cultura disco).

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O que parece é que não só Jenny está sendo julgada, mas a própria contracultura e o estilo de vida dos anos 60 e 70. É como se dissessem “Tá vendo? Eram só um bando de revoltadinhos, e agora estão pagando por todos os seus excessos, já que a AIDS tá comendo solta”.  E eu até cheguei a ver num site que comentava o filme a afirmação de que mulher que transa com muitos homens se gasta logo e envelhece cedo. Pelo amor né?

Falando nisso, não é meio exagero que uma mesma personagem consiga fazer parte de tantas tribos diferentes durante a sua vida? Quantas pessoas você conhece que foram grunges nos anos 90, emos nos 2000 e hipsters nos 2010? Forrest também passa por muitas situações improváveis, claro, mas a intenção delas é de comédia mesmo. Já a subtrama da Jenny é mergulhada no drama.

Logo após a morte da mãe de Forrest, e depois de mais uma das cogitações de suicídio, Jenny volta pro Alabama pra passar um tempo com o amigo de infância. O filme trata isso de uma forma tão escandalosa, como se ela estivesse se purificando dos seus pecados, que até as roupas dela, assim como todos os tecidos que aparecem, são brancos. E tudo parece indicar “por que essa perdida não fica com o Forrest, que oferece um amor tão puro?” 

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E pra quem ainda acha que eu estou exagerando, dê uma olhadinha na forma como o filme trata os combatentes da Guerra do Vietnã e os militantes do Panteras Negras. Ambos foram grupos armados, certo? Mas qual deles  invadiu uma nação estrangeira pra defender o próprio imperialismo e qual que lutava pelo fim da desigualdade racial mesmo?

A gente sabe que os Panteras tiveram a sua cota de excessos, mas mostrar como se eles fossem um bando de fanáticos enquanto que os militares eram gente boa e só tinham amor pra dar foi forçar demais a amizade.

E por fim, Jenny só encontra uma redenção parcial por ter se tornado mãe e esposa e passado a viver uma vida mais “honesta”. Nada de terapia, nada de reconciliação com o passado. Só um ambiente mais calminho pra ela poder curtir sua fase terminal em paz.

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E é isso que acontece com quem só aceita os sagrados laços do matrimônio tarde demais

Não sei se a culpa desse conservadorismo todo é do livro que serviu de base, já que eu não li. O diretor Robert Zemeckis já  tinha um pezinho no retrocesso desde De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985), que eu amo demais, mas não nego que erra a mão feio nas personagens femininas. Já o roteirista Eric Roth, bom, ele veio a cometer o roteiro de O curioso caso de Benjamin Button (The curious case of Benjamin Button, 2008), que não é machista, mas também não é nenhuma obra-prima.

Enfim, Forrest Gump tem seus bons momentos. Apesar de comprido, ele flui bem e não se torna cansativo. Eu adoro a cena em que o casal se encontra no protesto em Washington, e quando Forrest é notificado de que seu sócio andou fazendo investimentos numa certa maçã. Mas nada disso é forte o suficiente pra justificar uma trama tão tendenciosa.

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4 thoughts on “Grandes injustiças do Oscar: Forrest Gump (1994)

  1. Pingback: Vale a pena mesmo ter Netflix? A opinião de quem assinou (parte 1) | O filme da tarde

  2. Pingback: O Oscar de melhor canção original não é mais aquele? | O filme da tarde

  3. Nó cego, o filme foi totalmente baseado no livro Forrest Gump, não foi “inventado e criado como “Oscar Bait”.

    O tipo de merda que você escreve só pode vir de um tipo de gente: esquerdopata.

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