Meu primeiro filme em Seattle : The Sapphires (2012)

sapphires_topDepois de termos passado o fim de semana carregando móveis escada acima, mudar nos EUA não é fácil, eu e Lucas resolvemos conhecer os cinemas daqui. Decidimos por The Sapphires (2012), porque pareceu fofo, divertido, tinha o Cris O’Dowd (o Roy do seriado inglês IT Crowd) e estava em cartaz num cinema perto de casa.

Embora a escolha tenha sido acertada pelo filme em si, como vou explicar logo a seguir, acho que não foi uma boa pra ser nosso primeiro filme sem legendas. A produção é australiana, e boa parte dos personagens falava usando expressões pouco compreensíveis pra nós. Em alguns momentos o cinema  inteiro gargalhava e a gente ficava lá, com cara de tacho. Mas vamos ao filme.

A história foi baseada num musical, que por sua vez se inspirou num acontecimento verdadeiro, ou em parte dele. Quatro moças aborígenes que sonham em ser cantoras resolvem formar um grupo e se apresentar para as tropas americanas no Vietnã, oportunidade que elas haviam visto no jornal. São as irmãs Gail (Deborah Mailman), Cynthia (Miranda Tapsell) e Julie (Jessica Mauboy), além da prima delas Kay (Shari Sebbens).

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O problema é que isso acontece nos anos 60, numa época em que os aborígenes tinham acabado de conquistar o status de seres humanos (pasme, antes eles eram considerados “fauna e flora”) e o preconceito contra eles ainda era muito grande. Daí que as meninas, que haviam acabado de perder um concurso de talentos por pura discriminação, resolvem aceitar a ajuda do irlandês maluquete e boa praça Dave Lovelace (Cris O’Dowd). Ele, por sua vez, as convence a cantar música negra americana ao invés do country que até então fazia parte do repertório delas.

Daí temos várias cenas de ensaio, transformação e dança muito parecidas com as que já vimos em milhões de outros filmes. O comecinho então, com elas se apresentando crianças pra comunidade, parece chupado de 2 Filhos de Francisco (2005). Mas a gente acaba nem ligando, porque os personagens são cativantes, as situações são divertidas e nos importamos realmente com esse pessoal. As músicas são todas ótimas e os figurinos sessentistas são uma graça.

Eu normalmente tenho minhas ressalvas com aquela situação de “branco salvador”, como se os negros realmente precisassem de um desses pra se virar  (eu estou falando com vocês, Django Livre e Histórias Cruzadas). Ainda mais porque na história das Sapphires reais não havia nenhum empresário irlandês, elas começaram como backing vocals de um grupo Maori. Mesmo assim, eu admito que boa parte da graça do filme vem do personagem do Cris, ele é fofo, bem-intencionado, e as meninas nem dependem tanto dele assim, aliás, ele que acaba obedecendo Gail, a chefe do grupo. E eu já mencionei que ele é fofo?

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Dave e Gail, na melhor tradição do “casal que briga mas se ama”. Tá, soltei um spoiler, mas é pequeno, eu juro.

Todas as garotas têm suas subtramas, mas a mais interessante acaba sendo a da prima Kay. Por ser mestiça, e ter a pele clara o suficiente pra poder passar por branca, ela vive o conflito entre ser aceita na sociedade e assumir suas origens aborígenes. Isso acaba gerando brigas constantes com suas companheiras, que a acusam vez ou outra de se sentir superior, quando todas elas passaram boa parte da infância juntas.

Tudo fica especialmente dramático quando descobrimos que Kay foi uma vítima da política oficial do governo australiano por boa parte do século XX de sequestrar crianças mestiças, separando-as de suas famílias,pra realojá-las em lares adotivos brancos. A partir daí passamos a compreender melhor as motivações da personagem.

O problema do filme é que chega um momento em que a história meio que se esgota. Sério, não sobra quase nada de relevante pra contar. Aí o roteiro passa a adotar soluções fáceis e clichês, aproveitando o fato de estarem no Vietnã pra jogar vários acontecimentos relacionados à guerra e que não combinam muito com a história que até então estava sendo contada. O que é uma pena, já que os conflitos que o grupo trouxe da sua terra natal eram muito mais interessantes.

Mesmo uma cena que tinha um grande potencial dramático acaba estragada não só por sua própria resolução, mas também por coincidir com imagens de TV do assassinato de Martin Luther King. Eu sei que a intenção foi mostrar  como todos os povos deveriam se unir contra o preconceito racial, mas o resultado acabou sendo um negócio meio Telecurso 2000.

Mesmo tendo suas fraquezas, The Sapphires ao fim acaba te deixando com um grande sorriso no rosto. O pessoal do cinema até aplaudiu na nossa sessão. Eu até procurei informações sobre a estreia no Brasil, e qual seria o título em português, mas não achei nada. Só resta a você prestar atenção pra ver quando que vai estrear, e não deixe de ver.

Quando se trata de nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo, esses australianos nunca nos decepcionam.

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4 thoughts on “Meu primeiro filme em Seattle : The Sapphires (2012)

  1. Pingback: Pra não dizer que não falei de cinema: o museu EMP em Seattle | O filme da tarde

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