Django Livre (2012)

django-unchained

Toda estreia de filme do Tarantino é a mesma coisa. Dá até pra fazer uma cartela de bingo e ir marcando cada vez que alguém chama o diretor de gênio, menciona que seus filmes são colagens de outros gêneros, ou que ele usa músicas retrô, ou que a violência é extrema e geralmente gratuita. Já se sabe de tudo isso há uns 20 anos, mas sempre aparece um fã mais jovem, empolgado, e doido pra mostrar aquelas curiosidades que ele acabou de aprender no Google.

Eu também já fui desse jeito, outras gerações virão repetindo a mesma ladainha, e a coisa vai continuar num ciclo sem fim pelo menos enquanto o sujeito continuar trabalhando. É até uma espécie de rito de passagem o dia em que você perde a paciência ao ouvir “quer saber o nome de todos os faroestes e filmes de luta que servem de referência pro último lançamento do Tarantino?” Nem consigo imaginar como é pra quem viu Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992) no cinema.django livre

E eu acho que só empolgação juvenil, ou muita fidelidade mesmo, pra justificar esse povo considerando Django Livre (Django Unchained) um filme ótimo. No máximo tem cenas boas, soterradas num monte de cenas compridas e chatas, além de um final que não chega nunca. 

Pra começar, eu imagino que num filme sobre vingança o mínimo que se exige é que a gente simpatize com o vingador, e considere a causa dele justa. Como o personagem principal é um escravo recém-liberto que vai atrás da esposa, ao menos a segunda parte está garantida. 

O problema é que Django (Jamie Foxx) é um personagem entediante. Ele começa como escravo, e evolui pra algo próximo a um capataz. Poucas das grandes sacadas do filme são dele, e quando isso acontece, a impressão que dá é de ver uma criança treinada. E pra piorar, quem toma o filme quase inteiro é o dentista/caçador de recompensas King Schultz (Cristoph Waltz), que é responsável por todos os momentos “uau” de Django Livre.

King SchultzNão achei tão problemático o fato de ser um cara branco ensinando um cara negro, mas o Schultz tinha que ser tão importante? É como se o Pai Mei assumisse a dianteira em Kill Bill, ou Ramirez em Highlander. Lugar de mestre pra mim é no passado, aparecendo só o mínimo necessário e, se possível, num flashback. Se não, o filme passa a ser dele! Se é assim, batiza o filme logo com o nome do alemão.

Mas o que me incomodou mesmo foi o tratamento dado às mulheres nesse filme, nem parece que foi feito pelo mesmo diretor que nos deu Jackie Brown, a Noiva e Shosanna (Bastardos Inglórios). Pra começar a esposa perdida Brunhilda Von Shaft (Kerry Washington) é tipo uma Escrava Isaura, bonita, culta e falante de alemão, só faltou ser uma escrava branca. Em praticamente  todas as cenas ela aparece sendo castigada, chorando ou olhando pro Django com aquela cara de “meu herói!”. Ela também é a única escrava que realmente sofre (e como sofre!) com a sua condição, já que é a toda pura consorte do herói. E quando o casalzinho finalmente se encontra…é de um suspense digno da “Porta da Esperança”.Django-Unchained-50-Daniele-Watts

Já as outras parecem perfeitamente satisfeitas, especialmente as que trabalham num puteiro/ringue de escravos que aparece lá pelo meio do filme. É tão bizarro que o Tarantino nos mostre o sofrimento dos escravos que são obrigados a lutar (especialmente de um que resolve fugir) mas faça parecer super “tranks” a situação das moças. Como se prostituição forçada, estupro e sabe-se lá o que mais que elas têm que aguentar fosse muito melhor do que aquele MMA que só acaba quando um deles morre. Bola fora Taranta, bola fora.

Nem parece que eu sou escrava né? E que só tô aqui porque fui obrigada.

Nem parece que eu sou escrava né? E que só tô aqui porque fui obrigada.

Outro grande ponto fraco do filme é a parte que envolve Candyland, a fazenda do Mr Candy (Leonardo DiCaprio), onde Brunhilda se encontra presa. Pra começar, a ideia do Dr. Schultz pra conseguir comprar a moça é totalmente estapafúrdia e nem combina com a esperteza que ele tinha mostrado até então. Toda aquela enrolação podia ter sido resolvida se ele e o Django deixassem de ser mãos-de-vaca e oferecessem logo uma quantia alta por ela!

Eu quase dormi com todo aquele teatro, e lamentei também que um personagem tão bacaninha como o Mr. Candy fosse desperdiçado nesse lenga-lenga. Sem mencionar certo personagem, que parece tentar reafirmar aquela história de que “os piores racistas são os próprios negros”. Falando nisso, o que eram aqueles outros escravos, hein? Eram mais zumbis que os figurantes de The Walking Dead.

candyland

Pessoal, entra aí não! Vocês vão morrer… só que de tédio.

Pra não dizer que eu não gostei de nada, achei a cena em que Django e Dr. Schultz estão se preparando pra viajar (selando cavalo, essas coisas) ao som de “I got a name” do Jim Croce bem emocionante. Faz anos que eu tentava descobrir o nome dessa música, mas nunca conseguia entender o que o cara cantava. Deu até vontade de andar a cavalo, mesmo com todas as minhas experiências nesse sentido terem sido traumáticas. Aliás, a trilha sonora tá ótima, não só os clássicos dos faroeste espaguete, mas também um hip-hop que combinou bem com a cena em que apareceu. Você pode ouvir tudo isso no site oficial do filme.

A cena com os Ku Klux Klan pioneiros  foi muito engraçada, assim como Dr Shultz mandando ver pra ridicularizar os brancos sulistas “gente de bem”. Mas é preciso mais que isso pra se considerar que o filme acertou as contas com o flagelo da escravidão. E se você gostou desse filme seja honesto, e não tente justificar sua preferência apelando pra um suposto acerto de contas, revanche dos oprimidos, uma oportunidade de discutir um tema polêmico, ou mesmo por gostar de filmes “históricos”. Django Livre é tão comprometido quanto qualquer novela da Globo sobre o mesmo tema.

Anúncios

8 thoughts on “Django Livre (2012)

    • Oi Bruno! Eu tava lendo agora esse link que você mandou. Adorei a parte do Pica-Pau, foi bem assim mesmo 🙂 Mas eu discordo de que gastar muito dinheiro pra fazer um filme parecer vagabundo seja ruim, a graça de Kill Bill era justamente essa, os personagens se levando super a sério enquanto aquele sangue falso ficava espirrando.

  1. Boa resenha, Camila. Concordo com muitas coisas. Sou fã do trabalho de Tarantino, mas ele vem se mostrado cada vez mais interessado em fazer cinemão, apesar de aparentemente não ter capacidade para isso (ao menos, não agora).

    • É minhA carA, na verdade, foi uma moça que escreveu esse post. E se eu fosse depender de Tarantino pra ter veracidade histórica, bom, seria um problema. Ele não chegou a matar Hitler dentro de um cinema em Bastardos Inglórios?Mas eu fiquei feliz com o seu comentário, é o meu primeiro detrator 🙂

    • Cada qual com sua opinião né! Não sou critica de cinema, mas se dependesse das opiniões dos criticos, não entraria em uma sala de cinema e perderia grandes emoções. Não sou tão jovem… adorei o filme!

      • Oi Sirleia! Então você acha que eu consigo convencer como crítica? Brigada. Na verdade eu só tento guardar aqui o que eu vou pensando de alguns filmes, e de repente, até ouvir o que dizem outras pessoas, se elas comentarem. Eu também não deixo de ver nada por uma crítica só (eu leio várias), mas mesmo as opiniões contrárias à minha me fazem ver as coisas de um jeito diferente, perceber detalhes que não tinham passado pela cabeça à primeira vista. É um exercício bacana, pode apostar 🙂

  2. Pingback: Meu primeiro filme em Seattle : The Sapphires (2012) | O filme da tarde

Deixe seu palpite aqui. O poder é de vocês!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s