Guest Post: Senna, o filme (2010) – política e maniqueísmo a 300 km/h

Senna_Prost_89

Depois de invadir o blog da Camila para falar sobre adaptações de séries e filmes para jogos de tabuleiro (e da coleção de clichês cinematográficos em Fearsome Floors), me intrometo novamente nos posts dela, para falar de Senna, o filme de Asif Kapadia.

Como já havia comentado, Fórmula 1 é um esporte tão cinematográfico que merecia bem mais filmes do que os que já existem (a maioria indo direto pra vídeo). Um dos motivos para Hollywood não dar muita bola para esse esporte é óbvio: F1 nem de longe tem, nos EUA, o mesmo apelo que tem na Europa ou no Brasil – embora, infelizmente, por aqui ela venha cada vez mais caindo na preferência pública.

Grand PrixQuando se fala em automobilismo na telona, vêm a mente dois filmes: Grand Prix, de John Frankenheimer, e Le Mans, de Lee Katzin. Ambos com mais de 30 anos: o primeiro é de 1966 e o segundo de 1970. E, como está óbvio no nome, o segundo não é sobre F1 e sim sobre as 24h de Le Mans.

De lá pra cá, até onde eu sei, não houve mais nada de tão relevante – não, eu não considero relevantes coisas como, digamos, “Dias de Trovão”. Nada contra, mas os dois filmes acima, apesar de serem ficção, foram feitos de forma muito próxima ao esporte. Grand Prix tem várias cenas reais de corrida e participação de lendas como Hill (o pai), Fangio, Clark, Rindt e McLaren.

Le Mans foi filmado Le Mans Steve McQueendurante uma edição do mais importante evento de endurance do automobilismo, a equipe de filmagem chegou a inscrever um carro com câmeras para obter o máximo de imagens, e os pit stops eram justamente para trocar os rolos de filme. Não é um filme que tem corridas, é mais ou menos como acompanhar uma corrida e de brinde ganhar uma história (pra quem gosta, é um prato cheio – tem fã de automobilismo que não sorria ao ver um 917 azul e laranja?).

A Camila também é fã da combinação azul e laranja - mas por conta de Abraços Partidos do Almodóvar

A Camila também é fã dessa combinação de cores – mas por conta dos filmes do Almodóvar

Senna MovieBaseado em fatos reais então, nem se fala. Há inúmeros documentários para TV/vídeo, mas alguém consegue se lembrar de um filme documental sobre F1 que foi pro cinema? Pois é, Senna é esse filme.

E isso não deveria ser surpreendente, já que a vida de Ayrton é suficientemente cinematográfica para que possa ser contada sem precisar criar nada, o que é justamente o que Asif Kapadia faz: o filme é praticamente todo montado com filmagens para transmissão (algumas inéditas até então) ou do arquivo particular da família do piloto.

Apesar da breve introdução sobre o caminho de Senna nas categorias de base, é óbvio que o foco vai logo para sua chegada à F1, compreensivelmente dando ênfase ao grande prêmio de Mônaco de 1984. Senna corria com um bom chassis (assinado por um então desconhecido Rory Byrne – o sujeito que criaria todos Senna Monaco 1984os carros com os quais Schumacher disputou títulos, tanto na Benetton como na Ferrari), mas com motor sofrível e pneus defasados, o que fazia com que o conjunto, no geral, fosse muito fraco.

Pra se ter ideia  os outros três pobres coitados que o dirigiram eram praticamente sempre pelo menos três segundos mais lentos que o pole position – uma vida, em se tratando de fórmula 1. Mas enfim, o que aconteceu foi que nessa corrida caiu uma chuva daquelas e o tal do Senna começou a literalmente constranger o resto do grid.

Campeões como Niki Lauda e Keke Rosberg, correndo com carros muito melhores, eram ultrapassados como se fossem figurantes, enquanto outros iam ficando pelo caminho (como falei, era realmente uma chuva daquelas), até que, quando Prost era o último à sua frente, a corrida foi interrompida.

O fato acaba dando o mote para aquilo que vai ser a tônica do filme – Ayrton Senna vs. A Política (insinuando-se que a interrupção da corrida teria sido apenas por pressão de Prost, e não pelo fato de que a coisa estava realmente tão feia que alguém podia acabar se ferindo).

O que já se sente logo em seguida: Estoril 8585 é mostrado rapidamente (dando ênfase obviamente à sua primeira vitória, em Estoril) e as temporadas de 86 e 87 são solenemente ignoradas para já irmos direto à 88, quando finalmente Senna teve um carro vencedor, ao lado de Prost.

O que é realmente uma pena, pois para um filme que claramente toma partido, deixaram de explorar um dos maiores argumentos que sustentam a tese de que não houve, na fórmula 1 moderna, piloto que se comparasse a Senna desde seu tempo: o que ele fez antes de ter um carro exemplar.

Quem acompanha Fórmula 1 há muito tempo sabe que, praticamente todo ano, algum novato é chamado na imprensa de “o futuro campeão fulano de tal”. É o tipo da coisa que se faz mais para chamar atenção do que como algo realmente sério, e na prática os especialistas só começam mesmo a avaliar seriamente a posição de um piloto entre os grandes da história quando ele já conta com  vitórias e, preferencialmente, campeonatos (com as honrosas exceções de Stirling Moss e Gilles Villeneuve, que não raro figuram em listas de “10 mais” mesmo sem nunca terem sido campeões).

Sergio Perez

O Futuro Campeão do ano passado foi esse aí de cima – será que vai ser mesmo?

Já com o Senna, a coisa foi diferente: ao fim de 87, ele tinha apenas seis vitórias, e sua a melhor colocação em um campeonato tinha sido um terceiro lugar. Só que, antes mesmo dele finalmente correr com um carro vencedor (e a McLaren seria um rolo compressor em 88), os especialistas do esporte já discutiam animadamente em que posição deveriam colocar Senna entre os maiores de todos os tempos.

Um dos mais importantes escritores/jornalistas especializados em F1, Denis Jenkinson, já colocava Senna em seu “Top 10” à frente de nomes como Piquet e Prost, àquela altura já bi-campeões. Por um motivo muito simples: Senna passou aqueles três anos na Lotus constantemente brigando na frente, chegando inclusive a liderar os dois últimos campeonatos em pelo menos uma oportunidade, e não é exagero afirmar que teria grandes chances de ter sido campeão já em 85 se a Lotus fosse mais confiável (foram inúmeras quebras naquela temporada, muitas vezes quando liderava).

Isso tudo num carro que estava sempre abaixo de pelo menos duas equipes (em 85 era a McLaren que dava as cartas, seguida por uma Ferrari ainda forte, enquanto 86 e 87 foram amplamente dominados pela Williams com a McLaren logo atrás).

Denis Jenkinson (esquerda) pega uma carona com Stirling Moss, um dos raríssimos pilotos a ser considerado por muitos entre os melhores de todos os tempos sem ter vencido um único campeonato na F1.

Denis Jenkinson (esquerda) pega uma carona com Stirling Moss, um dos raríssimos pilotos a ser considerado por muitos entre os melhores de todos os tempos sem ter vencido um único campeonato na F1.

Senna já era considerado um dos grandes pilotos da história mesmo sem um único campeonato por ser capaz de “tirar leite de pedra” ano após ano, por quatro temporadas seguidas (o filme ignorou o fato, mas além do lendário GP de Mônaco, em 84 Senna conseguiria mais dois pódios num conjunto que, com boa vontade, dava pra chamar de mediano).

Pra se ter uma ideia do quanto tal feito é raro, vale lembrar que, após os anos 80, só veríamos novamente um piloto com chances reais de ganhar um campeonato sem ter o melhor carro ou pelo menos o segundo melhor apenas em 2003, quando Kimi Räikkönen quase foi campeão contra as superiores Williams e Ferraris. Demoraria mais sete anos para Alonso fazer o mesmo em 2010 e 2012.

O que muitos não lembram, porém (e isso também é ignorado no filme) é que o sujeito que seria companheiro de Senna em 88 e 89 é, também, um dos maiores
“tiradores de leite de pedra” da F1 moderna – prova disso é a temporada de 86, em que Prost, mesmo correndo com um carro claramente mais fraco que as então poderosas Williams-Honda, tirou o máximo de cada oportunidade que teve, não cometeu erros (uma de suas maiores qualidades, aliás), e, com dois pontos de vantagem para Mansell e três para Piquet, foi o campeão daquele ano.

E isso talvez não tenha sido lembrado porque, infelizmente, a forma escolhida para retratar Prost é a do vilão, que ganhava graças “à política”. O que, convenhamos, é de um maniqueísmo extremamente desonesto. Hora de fazer um parêntese.


A maioria dos que vão ler esse texto são brasileiros, então já devem estar acostumados à ideia de retratar Prost como o malvadão. Mas é bom deixar algumas coisas claras. Em primeiro lugar, falo como alguém que admite sem ressalvas que, em termos de talento como piloto, Senna não teve pares, e desde Monaco 92então ninguém sequer chegou perto.

Há três pontos sobre Senna que provavelmente são quase unanimidade: a capacidade de fazer voltas lançadas (mesmo tendo dirigido todo tipo de carro, alguns muito inferiores à concorrência, o único ano em que deixou de marcar pole foi em 84 – e ainda assim conseguiu um terceiro tempo naquela temporada), o desempenho sob chuva (em toda a sua carreira, não houve uma única corrida com chuva em que não fosse capaz de andar entre os primeiros – tendo liderado praticamente todas), e ao lidar com pistas travadas como Mônaco (liderou todas as edições das quais participou exceto a de 84 – sim, aquela em que ele já tinha jantado todo mundo e se aproximava a passos largos de Prost quando a corrida foi interrompida).

Fico feliz que, no filme, tenham se lembrado de que há algo em comum entre esses três pontos: trata-se da capacidade de saber lidar com os limites da aderência. Ninguém chegava perto de Senna nesse aspecto, e até hoje, mesmo que de vez em quando ainda vejamos alguns pilotos sendo festejados como “o novo rei da chuva”, não há comparação – outros fizeram grandes provas nessas condições, mas nenhum foi capaz de fazer isso sempre e, o que é até mais importante, com qualquer carro.

Tendo dito isso, é preciso dizer que Senna tinha também um defeito grave: em muitos momentos de sua carreira, teve atitudes não muito esportivas. Não digo que tinha sido o pior de seu tempo nesse quesito, mas uma coisa não se discute:ProstSpins pior que Prost, ele era sim. Um dos maiores talentos de Prost era seu auto-controle: vê-lo cometendo erros era algo raríssimo.

Obviamente, o retrato parcial que se faz dele aqui no Brasil gosta de afirmar o contrário (“ele rodou numa volta de apresentação, rá rá rá!”), mas o francês em geral errava tão pouco que gerava até anedotas por esse motivo (certa vez Eddie Cheever viu Prost rodando num teste, soltou um “não acredito, o Prost rodou!”, parou por uns segundos e depois emendou com um “ah, bobagem, provavelmente ele vai rodar de novo daqui a uns três ou quatro anos”).

Além disso, ele se envolvia em pouquíssimos acidentes: pouquíssimas vezes, em seus 13 anos de carreira, abandonou corridas devido a batidas em outros carros. De 88 a 93, isso só aconteceu duas vezes: sim, aquelas duas que ficaram famosas.

Isto é, pode-se falar mal de Prost pelos mais diversos motivos (o que é aquele nariz, hein?), mas ser um “piloto sujo” definitivamente não é razoável. Senna teve algumas disputas bem questionáveis com Prost (a de Estoril em 88, quando os dois já estavam na mesma equipe, foi notória), e se o próprio acidente de Suzuka em 89 ainda divide opiniões quanto a ter sido proposital ou não (e, ainda que tenha sido, foi um caso de exceção), o mesmo não se pode dizer do que aconteceu na mesma pista no ano seguinte.

O filme reproduz a Estoril 88famosa entrevista que Senna deu em seguida a Jackie Stewart em que, convenhamos, Senna tentou sair pela tangente com aquele papinho de que “um verdadeiro piloto não pode deixar de explorar uma brecha a cada vez que ele vê uma”, mas a verdade é que não existia brecha alguma: Senna não estava disposto a fazer uma ultrapassagem, e sim a tirar os dois da corrida.O que ele acabou admitindo mais tarde.

Que me perdoem os que acham que “ele só estava pagando na mesma moeda” ou que “piloto bonzinho não ganha corrida”, mas, na minha opinião, causar deliberadamente um acidente para se dar bem, independente das condições, é uma mancha grave em qualquer biografia. E não custa lembrar que, mesmo tendo muito raramente se envolvido em acidentes com outros pilotos, Alain Prost foi campeão quatro vezes e vice por mais quatro – o que mostra que é, sim, perfeitamente possível ser bem sucedido sem tais atitudes.

Além disso, embora a ideia geral por aqui seja que Prost “roubou” o título de Senna em 89, vale lembrar que, mesmo que Senna tivesse vencido aquela corrida isso não daria para ele o título (antes daquela corrida o placar era 76 a 60 a favor de Prost, numa época em que a vitória valia só nove pontos): ele ainda teria que ir muito bem na corrida seguinte e torcer para Prost se dar mal.

Ao invés de demonizar o francês, teria sido mais justo reconhecer que Prost foi o único piloto capaz de fazer frente a Senna em carros iguais. Não sendo capaz de fazer isso apenas pela velocidade (e, convenhamos, ninguém faria), o fez através da inteligência, de sua visão de corrida, de seu cuidado extremo com o equipamento e de ser quase imune a erros – qualidades que o permitiram, como já foi dito, ter sido campeão da temporada de 1986 em cima de dois dos maiores astros de seu tempo, munidos de um carro claramente melhor que o seu. Bola fora de Asif Kapadia.

Um ponto comentado (mas pouco explorado), foi a revolução tecnológica que se iniciava já em 1990. De certa forma pode-se dizer que a McLaren, por contar com o excelente motor Honda, relaxou em outros pontos que acabariam se tornando mais importantes.

A Ferrari apareceu com o câmbio semi-automático, Rory Byrne já impunha respeito como projetista à frente da Benetton e um certo Adrian Newey começava a por em prática idéias revolucionárias sobre aerodinâmica na nanica Leyton House (que quase fez dobradinha no GP da França daquele ano) – o que chamou a atenção de Frank Williams, que o contratou para o ano seguinte.

O Leyton House de Adrian Newey: espetacular em Paul Ricard, mas um lixo em todas as outras pistas. É que o carro só funcionava bem se fosse possível manter sempre a mesma altura do solo (e Paul Ricard era um tapete). Agora imaginem o que aconteceria se fosse possível fazer com que um carro como esse pudesse ficar sempre à mesma altura do asfalto em qualquer pista, e dá pra entender o que aconteceu em 1992.

O Leyton House de Adrian Newey: espetacular em Paul Ricard, mas um lixo em todas as outras pistas. É que o carro só funcionava bem se ficasse sempre à mesma altura do solo (e Paul Ricard era um tapete). Agora imaginem o que aconteceria se fosse possível fazer com que um carro como esse pudesse ficar sempre à mesma altura do asfalto em qualquer pista, e dá pra entender o que aconteceu em 1992: era justamente isso que a suspensão ativa fazia.

O que nos leva à temporada de 91, a vez de Senna fazer aquilo que Prost tinha feito em 86: vencer um campeonato contra um carro claramente superior ao seu (embora, não custa lembrar, Patrese não era um Piquet). O FW14 foi tão surpreendente nos testes que Mansell desistiu da aposentadoria para correr pela Williams, e a decisão mostrou-se extremamente acertada, já que o carro era de fato impressionante.

Senna ainda assim levaria o título, mas para o ano seguinte veio algo ainda mais assombroso: ao carro daquele ano acrescentou-se a suspensão ativa (teria também câmbio semiautomático e controle de tração), e o resultado foi algo tão fora do comum que não havia qualquer motivo para a Williams utilizar o carro que estaria planejado para aquela temporada: com o do ano anterior acrescido dos novos componentes eletrônicos, a equipe já sobrava de forma impressionante.

Mansell GolfinhoNigel Mansell, é bom que se lembre, era um piloto que, apesar de muito respeitado pela velocidade, era também meio estabanado.

Tendo nas mãos um carro capaz de compensar esse defeito (como diziam as más línguas, ele parecia “correr sob trilhos”), o resultado não podia ser outro: o Leão atropelou a concorrência e o FW14B (o B se refere às mudanças feitas em relação ao carro do ano anterior, FW14) é até hoje lembrado como um dos carros mais dominantes da história da categoria.

Depois de nada menos que sete temporadas seguidas sendo postulante ao título, mesmo que em alguns casos não tinha carro pra isso, Senna não teve a menor chance de ser campeão pela primeira vez desde 1984.

Na pontuação final aconteceu um fato curioso: Senna acabou figurando em quarto, atrás de Schumacher, apesar do fato de que o alemão praticamente nunca esteve à sua frente durante toda a temporada. O motivo era simples: enquanto a confiabilidade da McLaren não era nenhuma maravilha (nada Silverstone 92menos que dez abandonos por falha mecânica, cinco deles com Senna), Rory Byrne já mostrava ser capaz de projetar carros muito mais confiáveis – a Benetton teria míseros três abandonos ao longo da temporada, um deles com Schumacher.

O que é uma pena, pois isso acabou privando o público de ver, por exemplo, um pódio em sua corrida local e uma bela disputa no GP do Canadá, que Senna liderou por trinta e sete voltas até abandonar.

Senna havia milagrosamente feito a pole naquela corrida (a única do ano que não coube a um piloto da Williams), Mansell rodou ao tentar uma ultrapassagem (e isso depois de catorze voltas atrás de Senna), Patrese se embananou ao desviar de Mansell e perdeu uma posição, e aí, na volta 37, Senna teve uma falha elétrica e perdeu a grande chance de confirmar uma surpreendente vitória num ano em que bater aqueles carros em condições normais era praticamente impossível.

Em 1993, novo baque: a McLaren perdia os motores Honda (há muitos anos seu grande trunfo) e teve que se virar com motores Ford de segunda geração – isso porque a Benetton podia, por contrato, usar de forma exclusiva os motores de especificação mais alta, deixando para a McLaren a versão B que tinha menos potência (após muita insistência, a McLaren só conseguiria um lote dos motores melhores já na segunda metade da temporada).

A equipe até tentou tirar o atraso na questão tecnológica, incorporando câmbio semi-automático, suspensão ativa e controle de tração, mas era óbvio que a Williams ainda estava bem à frente. Tanto que, mais uma vez, se deram ao luxo de usar um carro defasado e ainda assim se dar bem: o carro com qual Prost correu em 93 era uma versão do FW15 – aquele carro que deveria ter sido o de 92 mas foi deixado de lado quando viram que um FW14 com suspensão ativa era mais que suficiente para vencerem com sobras.

Damon Hill Alain Prost Williams 93Mas já havia alguns sinais preocupantes: Prost relatava que o carro nem sempre se comportava bem, às vezes invertendo o balanço sem motivo algum – o que era péssimo para manter uma tocada precisa.

Óbvio que Senna aproveitava para zombar de Prost: se por um lado o filme não mostrou a famosa frase “se o Prost acha esse carro ruim, então pinta ele de vermelho e branco e dá pra mim”, por outro eles citam, sem maiores esclarecimentos, o fato de Prost ter abandonado a Ferrari em 91 devido à má qualidade do carro (como se aquele trambolho não merecesse críticas e se o próprio Senna não passasse a reclamar da falta de competitividade de seus carros nos anos seguintes), e Senna falando que “o Prost só sabe reclamar”.

Mas enfim, 93 acabou sendo, para muitos (como Reginaldo Leme, que dá seu depoimento no filme), a melhor temporada de Senna. Com a McLaren mais confiável, ele fez bem mais que garantir o terceiro lugar atrás das Williams – ele chegou a fazer parecer que talvez fosse possível bater aqueles “carros de outro mundo”.

Não deu, mas nem de longe a temporada foi uma derrota: ele conseguiu terminar à frente de Damon Hill, e ainda fez a Benetton passar vergonha com a Ford, já que mesmo contando por toda a temporada com o seu motor de última geração, ganhou uma só corrida, enquanto Senna levou cinco – algumas memoráveis, como Donington 93, para muitos sua obra-prima. E, pra completar, ele tinha contrato assinado justamente para correr pela Williams no ano seguinte.

Donington, 1993. Não creio que quem tenha lido até aqui não já tenha visto essa primeira volta à exaustão, mas nunca é demais: Primeira volta de Donington 93 (youtube)

Donington, 1993. Não creio que quem tenha lido até aqui não já tenha visto essa primeira volta à exaustão, mas nunca é demais: Primeira volta de Donington 93 (youtube)

Antes de falar dessa temporada, claro, mais alfinetadas em Prost, o malvado francês que vetou Mansell em 93 e se recusou a continuar lá em 94 com a presença de Senna. Mais uma bela dose de parcialidade de Kapadia, afinal o próprio Senna também já havia vetado um piloto no passado (Derek Warwick, ainda na Lotus).

O que parecia melhor impossível para Senna – correr nas incríveis Williams que tinham dominado os dois campeonatos anteriores (e que provavelmente também teriam levado com facilidade o campeonato de 91 se ele não estivesse lá pra estragar a festa) – acabou se tornando um pesadelo.

Para evitar campeonatos tão previsíveis, a FIA decidiu proibir toda a eletrônica – controle de tração, suspensão ativa, controle de largada, etc. E, sem justamente aquilo que os fizeram imbatíveis nos dois anos anteriores, a Williams não tinha mais vantagem nenhuma além do motor Renault.

Brasil1994Mas não parava por aí. Lembram daquele probleminha de que o Prost reclamava, do carro mudar o balanço sem mais nem menos, do qual o Senna fazia troça dizendo que era desculpa de quem “só sabe reclamar”?

Pois o problema realmente estava lá, e o efeito era muito pior: como não havia mais toda a eletrônica que evitava que tal problema causasse grandes estragos, Hill e Senna agora comiam o pão que o diabo amassou: o carro parecia neutro, depois do nada apresentava substerço, para logo em seguida ter um pico de sobreesterço e a traseira ir pro espaço – os dois pilotos rodaram à beça nos testes (e não só neles).

Adrian Newey Ayrton SennaMal acostumado com a suspensão ativa, Adrian Newey teve que “reaprender” a trabalhar com suspensões tradicionais, e havia tomado decisões não muito felizes (os termos que ele usou originalmente foram bem mais enfáticos: “a bloody awful cock-up”) no projeto e na forma de acertar o carro.

O fato de que Senna, como dizia um amigo meu, “fazia pole até de bicicleta” permitiu que ele conseguisse largar na frente nas suas últimas três corridas, mas Hill (que esteve em praticamente todas as primeiras filas do ano anterior) nem de longe conseguia fazer isso – não apenas ficava atrás da claramente superior Benetton, mas sofria até para bater as Ferraris (Alesi e Berger largaram à sua frente no Brasil e em San Marino, respectivamente).

Vale lembrar que naquele tempo a classificação era aberta, os pilotos podiam fazer várias voltas na hora que quisessem e, portanto, dava pra tentar fazer um bom tempo torcendo para que o carro completasse uma volta inteira sem dar um daqueles piripaques. Mas para fazer uma corrida inteira, não tinha jeito. No Brasil, Senna rodou e Hill tomou uma volta de Schumacher.

Imediatamente surgiram as suspeitas de que nem todos os times tinham realmente retirado o controle de tração e de largada de seus carros, e os pit stops da Benetton pareciam muito mais rápidos que o das outras equipes (apesar da bomba de combustível teoricamente ser igual pra todo mundo).

Só se descobriu o que estava acontecendo muito mais tarde: quando uma bola de fogo envolveu o carro de Verstappen, descobriu-se que a Benetton havia adulterado a bomba para o combustível entrar mais depressa, daí a rapidez dos pit stops, e a eletrônica embarcada no carro da Benetton só foi descoberta quando finalmente a FIA pediu às equipes para fornecerem os softwares de controle dos motores (e a Benetton atrasou a entrega o quanto pode).

Como nada disso era sabido na época, Senna acabou parecendo só um mau perdedor mesmo. Em Aida, seu abandono foi azar mesmo: Häkkinen lhe deu uma trombada logo na largada, causando abandono imediato. Já Hill rodou no começo da corrida, depois pareceu até que conseguiria um bom resultado, até abandonar com falha mecânica.

Foi nesse discreto incidente que desconfiaram que havia algo diferente na bomba de combustível da Benetton

Foi nesse discreto incidente que desconfiaram que havia algo diferente na bomba de combustível da Benetton

Mas aí uma das “cagadas” da Williams foi detectada a tempo de tentar remediar a situação ainda para o GP de San Marino – descobriu-se que a asa dianteira estava posicionada muito mais abaixo do que deveria e, problema corrigido, parecia que eles finalmente conseguiriam fazer frente à Benetton.

Senna Imola 94Como todo mundo já sabe, porém, seria tarde demais. Senna mais uma vez largou na pole, mas já na abertura da sexta volta teria o acidente que o mataria.

Ele não chegaria a dirigir a versão B daquele carro, que corrigiria vários dos problemas encontrados no começo do ano, e muita coisa ainda aconteceria naquela temporada – daquelas que fazem os fãs de Fórmula 1 se sentirem meio envergonhados.

A morte de Senna causa comoção geral, e Kapadia não perde a chance de colocar a carga dramática em nível máximo. E termina com imagens de um Senna em início de carreira, ainda no kart, e sua voz falando do quanto ele apreciava aquela época, em que tudo o que importava era pilotagem, e não política.

Entendo que é direito do diretor escolher tal ponto como mote, e qualquer entusiasta de Fórmula 1 sabe que não foram poucas as vezes em que a politicagem teve grande peso nos rumos de um campeonato. Mas me pergunto se isso realmente foi tão importante na carreira de Senna. Já que é um filme que toma partido, por que não explorar as temporadas de 86 e 87? Não dá pra dizer que foi por limitação de tempo, já que o filme não chega nem a ter duas horas.

Pior ainda é a forma utilizada para retratar Prost – é meio injusto usar da boa vontade do sujeito (ao que consta o francês cedeu bastante tempo em depoimentos para os produtores) para colocá-lo como o malvado da história. Talvez por acharem que sem uma clara distinção de herói e vilão, não faria sucesso no cinema. O que é realmente uma pena.

RushPor outro lado, o fato de Senna ter feito tanto sucesso (ao menos nos poucos lugares onde foi para o circuito comercial) sugere que talvez finalmente voltemos a ver bons filmes sobre esse esporte nas salas de cinema.

Um deles já está em fase de pós-produção: Rush, que conta uma história talvez até mais cinematográfica que a de Senna: a de Niki Lauda, o piloto que teve praticamente o corpo todo queimado após um acidente, chegou a receber a extrema-unção, mas voltou a correr, ainda se recuperando de seus ferimentos.

Como se não bastasse, voltaria da aposentadoria após dois anos sem correr, venceria novamente já em sua terceira corrida e duas temporadas depois seria campeão por mais uma vez. Tem tudo pra ser um filmão.

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