As aventuras de Pi (2012):em sendo ateu, ver milagres como eu (Parte 2)

Life of Pi

Ver a primeira parte desse post AQUI

Antes de voltar a falar de Pi, vou contar aqui duas historinhas bem conhecidas no meio da antropologia. Elas são encontradas em dois grandes clássicos da disciplina, respectivamente “A eficácia simbólica” de Levi-Strauss e ” Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande” de Evans-Pritchard.

kuna-womenO povo Cuna, que vive no Panamá, tem o seu próprio jeito de resolver partos complicados. Um xamã entoa para a parturiente um canto já estabelecido, que narra a saga de convencer Muu (espírito responsável pela formação do feto) a devolver a alma da mãe, da qual ele se apropriou indevidamente. Os versos relatam uma luta que aconteceria no próprio ventre, e descrevem momentos que correspondem com as dores e incômodos que a moça está passando, permitindo a ela compreender e ser ativa na resolução do próprio sofrimento. Ao fim, o parto é realizado com sucesso.

AzandeOs Azande, que habitam o centro da África, consideram como causa dos seus infortúnios a prática de bruxaria entre os seus membros. Funcionaria mais ou menos como um “olho-gordo”, e pode acontecer de a pessoa nem saber que é bruxa. Certo dia, um homem que descansava em um celeiro acabou morrendo quando este desabou. A morte foi atribuída à bruxaria, por mais que os Azande soubessem que o homem estava lá pra descansar do sol quente e que o celeiro caiu porque a madeira estava corroída por cupins. Mas como explicar de outra forma o fato de as duas coisas terem acontecido exatamente  ao mesmo tempo?

O que eu quis ilustrar aqui é que a religião é uma forma perfeitamente racional de criar ordem no caos, explicando o que poderia ser insolúvel e permitindo que as pessoas possam agir de alguma forma. O ser humano não se contenta em ficar sem respostas.

Agora eu volto às Aventuras de Pi, com muitos, muitos SPOILERS.

No filme, assim como no romance em que se baseou, um Pi já adulto narra a sua epopeia de sobrevivência por sete meses no Oceano Pacífico a um escritor com bloqueio criativo. Definitivamente não é o jeito mais original de se contar uma história, a gente já viu isso em um milhão de filmes, mas serve bem ao propósito aqui.

A primeira versão contada é a que vemos no filme e ocupa boa parte do tempo de projeção. Pi é o único humano a sobreviver ao naufrágio, e inicialmente divide seu bote salva vidas com uma zebra com a perna quebrada, uma fêmea de orangotango que perdeu os dois filhotes, uma hiena e um tigre-de-bengala. 

Como era de se prever, a natureza se manifesta, e a hiena ataca a zebra, depois o orangotango, e é por fim devorada pelo tigre, que passa a conviver com Pi até o resgate no México. É chocante, é brutal, mas enfim, a gente entende, eles são animais e é assim que as coisas funcionam.

Life_of_Pi__Struggle_by_Biffno

A morte dela me deixou tão chocada quanto a “versão alternativa”. Imagem originalmente em biffno.deviantart.com

Pi então passa a ter que lidar não só com o básico de sobrevivência de um náufrago (comida, água, feridas, etc) mas também com um tigre que pode devorá-lo a qualquer momento. No entanto, esse mesmo aparente obstáculo é o que o mantém ocupado e com um propósito nesses longos meses passados no mar. Sem Richard Parker, Pi não teria sobrevivido.

A outra versão é contada por Pi quando, após o seu resgate, ele é procurado pela empresa japonesa responsável pelo navio naufragado. Diante da recusa deles de acreditar na história envolvendo animais, é apresentada uma outra narrativa. Nessa, mais verossímil, Pi teria sobrevivido juntamente com sua mãe, o malvado cozinheiro do navio (Gérard Depardieu numa ponta), e um japonês boa praça com a perna quebrada. O cozinheiro resolve sacrificar o japonês, a mãe de Pi intervém e também é morta e resta ao próprio Pi resolver o problema matando o cozinheiro.

A identificação com os animais nessa versão mais hardcore é bem óbvia mas o filme se encarrega de dar uma explicação desnecessária: o japonês é a zebra, a mãe é o orangotango, o cozinheiro é a hiena e Pi, tchan tchan tchan tchan, é Richard Parker.

Mais uma vez, não é inédito apresentar duas histórias, uma “real” e outra “fictícia” quem têm pontos em comum uma com a outra. Só pra citar alguns, temos:

  • O próprio Peixe Grande ( que eu mencionei na primeira parte),O Mágico de Oz
  • O Mágico de Oz (os companheiros de jornada de Dorothy em Oz se parecem com funcionários da fazenda no Kansas),
  • Alice no País das Maravilhas (no livro, o jardim em que Alice adormece tem lagartas, flores e cogumelos)
  • O Labirinto do Fauno ( a mãe de Ophelia realmente melhora quando a filha intervém de forma mágica)
  • E até Cidade dos Sonhos e A estrada perdida do David Lynch

A diferença é que aqui não se trata de um sonho, um delírio ou uma fantasia pura e simples. Ao menos eu não interpreto assim. A história envolvendo animais é um mito que dá conta de uma série de acontecimentos que, de outra forma, seriam dolorosamente arbitrários. Podemos entender porque bichos se matam de forma sangrenta, mas como conceber que seres humanos façam o mesmo?

Estando perdidos no mar, assim como na própria vida, é compreensível não querer seguir adiante sem um propósito, um entendimento de como tudo acontece, pro bem ou pro mal. Pra mim acaba sendo irrelevante saber qual das histórias é verdadeira, considerando que se trata de uma alegoria, até porque, em última instância, as duas são “de mentira” (são cinema, literatura, ficção).

religion-symbols-religiousNão me cabe questionar com um religioso se o cântico a Muu realmente funciona na hora do parto, se as pessoas vão pro Paraíso, pro Nosso Lar ou pra Valhala depois da morte, se há um deus (ou vários) a controlar o nosso destino. Pra quem crê, tudo isso existe, e é o bastante. A beleza é que tenhamos respostas tão variadas a problemas que, no fim das contas, são bem parecidos.

Mas eu também espero o mesmo respeito quando eu digo que não acredito em nenhuma dessas coisas, e que consigo viver bem, e fazer o que acho correto, sem me filiar a nenhuma religião. Se eu não tento convencer ninguém a adotar a mesma concepção que eu, o mínimo que posso esperar é uma certa reciprocidade, certo? E não viver com medo de “sair do armário” e provocar uma verdadeira guerra santa.

Por fim, aqui está a música que inspirou o título do post, cantada por Caetano Veloso, que por sua vez se baseou numa frase de Jorge Amado. Assim como eu, dois ateus baianos dispostos a ver milagres.

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3 thoughts on “As aventuras de Pi (2012):em sendo ateu, ver milagres como eu (Parte 2)

  1. Pingback: As aventuras de Pi (2012):em sendo ateu, ver milagres como eu (Parte 1) « O filme da tarde

  2. Acabei de ver As Aventuras de Pi, e assim que os créditos subiram já invoquei o Santíssimo Google pra conhecer outras opiniões sobre o filme.
    Amei seu texto, que expressa exatamente minha opinião. Sou ateísta e assisti com meu marido que é deísta e ambos curtimos a estória. Agora quero ler o livro!
    Beijocas.

    • Oi Babby! Que bom que você gostou do texto, e é bacana como a história do pi consegue harmonizar bem essa discussão de religião né? Mas quanto ao livro eu vou meio que avisando, a primeira parte é ótima, mas depois do naufrágio fica meio arrastado. Eu tive que forçar a barra pra continuar lendo, mas de qualquer modo, vale a pena sim 🙂

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