As aventuras de Pi (2012):em sendo ateu, ver milagres como eu (Parte 1)

As aventuras de Pi

Pode ler em paz esse texto aqui, os spoilers estão todos na parte 2

Existem milhões de coisas que eu gostaria de escrever sobre As Aventuras de Pi (Life of Pi), filme dirigido por Ang Lee baseado no livro de Yann Martel (que por sua vez se inspirou/plagiou “Max e os felinos” do nosso conterrâneo Moacyr Scliar).

Eu poderia mencionar o visual lindíssimo, que chegou a compensar o uso daqueles óculos de 3D horríveis que sempre fazem meu nariz doer. Ou falar de como quase todo mundo na sala de cinema limpou as lágrimas dos olhos assim que tirou os tais óculos. E que até as crianças acompanharam toda o filme sem se intimidar pelas cenas que não foram feitas pra elas.

Mas o que se põe à frente disso tudo é o fato de essa ser uma história tão definitiva sobre religião e a natureza da crença. Tanto que ateus e religiosos podem se sentir satisfeitos e defendendo seus pontos de vista sem faltar com a verdade em relação ao que aparece no filme.pi-tigre

Falando rapidamente: é a jornada de um menino indiano, Pi (Suraj Sharma), que acaba perdido no mar após o naufrágio do navio em que viajava com a família. Também estavam sendo transportados os animais do zoológico do seu pai, e  é justamente um deles que acaba sendo o outro sobrevivente: um tigre-de-bengala. A complicada convivência dos dois é que se torna o ponto principal do filme.

Antes desse episódio, Pi ou Piscine (a explicação desse nome é ótima) vivia feliz com o pai e irmão ateus e a mãe hindu em Pondicherry, uma antiga colônia francesa na Índia. Nesse ponto, a narrativa  assume um tom de nostalgia que é delicioso, lembrando demais Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas ( Big Fish, 2003) do Tim Burton.

O primeiro contato de Pi com a religião se daria através da mãe, e posteriormente ele também iria resolver adotar o cristianismo e o islamismo, tudo ao mesmo tempo. O tempo passado à deriva acaba servindo como um teste para a sua fé. Claro que só a parte boa de tudo é mencionada, e nem sinal de sistema de castas, restrições aos direitos das mulheres, intolerância e aquele tom de “eu vou ser salvo, você não vai” que as religiões monoteístas adoram usar. Mas realmente não caberia nada disso aqui.

Festejos da Lavagem do Bonfim 2011.Foto: Adenilson Nunes/AGECOMPode parecer estranho que alguém consiga crer em três religiões tão distintas, mas não pra mim, que vim da Bahia. Sempre me pareceu normal ver católicos lendo livros espíritas e frequentando festas de Cosme e Damião.

E ver o pessoal do Candomblé acreditando em santos, reencarnação e até aparecendo em igrejas evangélicas de vez em nunca. E o que dizer mesmo da festa do Senhor do Bonfim em que até a Igreja Católica resolveu deixar de birra e abrir a porta pra lavagem das baianas?

Eu sou ateia desde os 12 anos, mas fui católica por boa parte da minha infância, tendo feito catequese, primeira comunhão, essas coisas todas. Minha mãe (que faleceu há 6 anos) sempre foi muito religiosa, mas num sentido muito mais de uma experiência de sagrado do que de seguir comportamentos pré-estabelecidos.

Ela passou por religiões diferentes até se tornar evangélica, tendo frequentado a Igreja Batista até o fim da vida. Mesmo assim, nunca deixou de chorar quando via uma procissão de Nossa Senhora, lembrança do seu passado católico. Apesar de me carregar pra um sem número de templos e rituais, ela nunca me obrigou a acreditar ou a frequentar nada de forma permanente. Ela sabia que essa era uma experiência pessoal demais pra acontecer de forma coagida.

Em certo momento do filme o narrador (o próprio Pi já adulto) conta como era importante o hinduísmo na vida da sua mãe, já que era tudo o que havia restado do passado dela (seus pais a renegaram por não concordarem com seu casamento). E como são lindas as cenas de ritual ( não lembro o nome, mas envolvia velas na água) de que ela participa e a história de como todo o universo podia estar na boca do deus Krishna criança.

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Um dos pontos altos da história foi justamente uma discussão entre os pais do Pi sobre a importância da religião na explicação da realidade. Segundo o pai, a razão e a ciência tinham conseguido decifrar em não tanto tempo muito mais do que milênios de religiões. A mãe concorda, ela mesma era bióloga, mas afirma que se tanto do mundo exterior já era conhecido, o mesmo não podia ser dito do interior de nós mesmos, e aí entraria a religião.

Pra mim, essa é a explicação da metáfora de Krishna e do filme: como desqualificar uma solução religiosa quando não temos um meio de conhecer a “verdade”? Que história escolher, a verossímil ou a mágica? O que havia na boca do pequeno Krishna, terra/areia ou realmente o universo?

Krishna

Pra falar mais de As aventuras de Pi  eu vou ter que entregar demais as “surpresas” do filme, então prefiro fazer isso na  segunda parte, em que todos já vão estar avisados. Até a próxima então!

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One thought on “As aventuras de Pi (2012):em sendo ateu, ver milagres como eu (Parte 1)

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