Detona Ralph (2012), sobre video-games e estereótipos de gênero

Detona Ralph personagens

Eu desconfiava que Detona Ralph (Wreck-it Ralph) não seria um filme feito pra mim. Por um lado, eu ainda me lembrava de produções da Disney sem princesas e sem o padrão Pixar de qualidade que acabaram sendo meio bobinhas e bem focadas no público infantil mesmo, como se crianças precisassem de simplificação. Assim foram A Família do Futuro (Meet the Robinsons, 2007) e Bolt-supercão (2008).sonic

Por outro, eu também sabia que o grande apelo com os adultos dessa vez seriam as referências aos video-games. Eu mesma joguei muito pouco quando era criança, fiquei traumatizada por todas as vezes em que perdi pros vizinhos no Sonic.

Só me empolguei mesmo com Donkey Kong porque me emprestaram e eu pude jogar em casa sozinha sem passar vergonha.  Daí que não tenho muitas referências desse universo, exceto dos personagens que passaram pros desenhos animados, como Mario, o próprio Sonic e o pessoal do Street Fighter.

Como eu previ, os mais empolgados no cinema eram realmente os pequenos (encantados com todas aquelas gags estilo Trapalhões) e  os marmanjos que deliravam especialmente com as menções aos jogos mais antigos. Meu marido mesmo adorou o filme e teve que traduzir várias coisas pra mim (como uma  trapaça famosa que certo personagem faz pra “avançar” num jogo).

Wreck-It-Ralph-Sugar-RushEu acabei gostando bastante do visual, achei tudo bem fiel aos jogos que pretendiam retratar. Inclusive em certos detalhes como uma sujeira líquida no chão ficando com um contorno quadrado, como nos jogos dos anos 80.

Só o jogo de corrida de doces em que se passa a maior parte da história que, se deslumbra no começo, acaba enjoando como se a gente realmente tivesse comido todas aquelas porcarias que aparecem na tela. Ou se ficássemos umas duas horas vendo o clipe de “California Gurls” da Katy Perry

Faltou só ela no filme

Faltou só ela no filme

A história em si não é nada de mais, especialmente porque é inevitável a comparação com a trilogia Toy Story (e nem deixam mesmo a gente esquecer). Detona Ralph é um vilão de jogo de 8 bits que está cansado de fazer sempre o mesmo trabalho há 30 anos e só ver o seu “rival”, o mocinho Conserta Félix Jr, levar a glória.

Ele decide provar seu valor aos companheiros realizando atos heroicos em outros lugares, como no jogo Hero’s Duty ( um jogo de tiro inspirado em Call of Duty, entre outros) e no Corrida Doce (uma espécie de Mario Kart açucarado). Neste último ele resolve ajudar a menina Vanélope a vencer a corrida e integrar a seleção oficial de corredores do jogo.Detona Ralph Conserta Felix

A gente só se identifica mesmo com o Ralph porque ele é o personagem principal e o filme diz que tem que ser assim, já que eu pelo menos não vi nada dele que realmente merecesse minha atenção (além da semelhança com o Donkey Kong).

Ele se chateia por ser subestimado no próprio jogo, deixado de lado, dormir no lixão, etc, mas não parece sofrer de verdade com nenhuma dessas coisas. Não como o Woody sofre quando é substituído pelo Buzz em Toy Story (1995), ou quando o próprio Buzz descobre que não é um patrulheiro espacial (numa cena que me faz chorar até hoje).

E eu até dou razão ao resto do pessoal do jogo por não convidar o Ralph pra festa dos 30 anos. O tempinho que ele fica dentro do prédio, mesmo sem querer, ele já sai destruindo tudo! A dublagem também não ajudou, já que eu vi a versão brasileira com Tiago Abravanel, que pode até ser um bom Tim Maia mas é péssimo dublando. Já a Vanélope e o Conserta Félix são dublados pela Marimoon (da MTV) e Rafael Cortez (do CQC) e eu até me surpreendi por terem sido tão competentes como estreantes.

Fix-It-FelixFalando em Conserta Félix, eu achei o personagem mais bacana de todos que foram apresentados, e até me ressenti de não ter tido mais cenas dele. A gente começa o filme tendo uma certa cisma, afinal, é o responsável pela situação precária do Ralph, e é irritante como ele é adorado pelos outros personagens do jogo.

Ele parecia até uma dessas pessoas “falsas boazinhas” que são super meigas na frente mas têm lá seus interesses escusos, ou aquelas perfeitinhas insuportáveis.

Mas acaba que ele é um cara legal mesmo, sempre foi educado com o Ralph, sai atrás dele pelos outros jogos, tem boas ideias e mostra coragem em vários momentos, mesmo quando isso parece meio suicida. Só achei que faltou um pouco mais de profundidade quando ele descobre que seus poderes não são tão úteis assim em outros jogos, mas enfim, meu padrão nisso acaba sendo a Pixar. 

A maior virtude desse filme pra mim, no entanto, era algo que eu não esperava de jeito nenhum: ele é possivelmente o filme mais feminista da Disney desde Mulan (1998). E olha que isso num filme que fala de vídeo-game, um feudo tradicional masculino. Pra apontar esses momentos eu vou precisar soltar uns spoilersentão melhor parar por aqui se você se chateia com revelações de enredo.

Ao contrário do que possa ter parecido no trailer, o filme tem dois protagonistas e dois personagens secundários importantes. E aVanellope car divisão deles é feita meio a meio, duas mulheres e dois homens. Quantas vezes uma situação dessa não foi resolvida colocando uma mulher lá só pra constar?

E as duas mulheres ( tá, uma mulher e uma menina) têm objetivos bem definidos no filme, não são suporte pra um personagem masculino. O drama de Vanélope em certo momento até passa a ofuscar o de Ralph, e ele que passa a servir de escada pra ela.

A outra personagem feminina é Sargento Calhoun, líder no jogo Hero’s Duty. Ela é uma mulher inteligente e mais forte/mais durona que os personagens masculinos, ainda que sua aparência seja sexualizada demais pro meu gosto.

Seu passado trágico inclui perder um noivo pra uma praga de insetos mutantes assassinos (os mesmos que ela combate no jogo), o que traz um interessante caso de personagem homem que só existe pra morrer e motivar uma vingança. O contrário é que sempre foi verdadeiro, com um herói perdendo a namorada bem no começo da história.

Conserta Félix e Sargento Calhoun acabam formando um casal bem diferente, numa inversão de papeis de gênero que a gente já tinha visto em Wall-e (2008). Ele não se importa de ser mais baixo e mais fraco que ela, aliás se apaixona justamente por isso, da mesma forma que o noivo perdido. E Calhoun continua a agir praticamente do mesmo jeito mesmo depois de eles terem se casado.

Felix_x_Calhoun

A maior parte da história se passa dentro dos jogos, mas algumas cenas se passam com os jogadores no fliperama. A pessoa que mais aparece nessa situação é uma menina, que tem interesse em jogar tanto Hero’s Duty como Detona Ralph.

Ela nem chega a jogar o que seria mais “menininha”, o todo rosa Corrida Doce, porque, olha que legal, são dois meninOS que ocupam a máquina o tempo todo. O que motiva a escolha do jogo aqui é se ele é bom ou não, e não pra que gênero ele teria sido supostamente destinado.

Moppet-Girl

E a cereja do bolo, literalmente, acontece quando Vanélope recupera o seu lugar como governante de Corrida Doce, expulsando o Rei Doce que não passava de um invasor vindo de outro jogo. Sua roupa magicamente se transforma num vestido de princesa, mas ela recusa esse papel por não ter nada a ver com sua personalidade e com o modo como ela havia sido até então. Ela resolve se autodenominar presidente  de uma república constitucional. É a Disney subvertendo um padrão que ela mesma ajudou a construir.

Não foi dessa vez que a Disney conseguiu igualar a Pixar em qualidade de animação, mas pelo menos em termos de igualdade de gênero ela já passou bem à frente.

Ah sim, e que coisa mais fofa aquele curta que passou antes do filme, o Paperman!

Paperman

Pra ver mais sobre a discussão do feminismo na mídia, ver esses sites aqui:

Escreva Lola Escreva–  o já superpop blog da Lola, que fala, entre outras coisas, de cinema

Feminist FrequencyVídeos super divertidos feitos por Anita Sarkeesian, e ela até está com um projeto de representação das mulheres nos video-games.

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4 thoughts on “Detona Ralph (2012), sobre video-games e estereótipos de gênero

  1. Eu adorei Detona Ralph! Mas concordo com quase tudo que você falou. Para mim, os maiores problemas do filme são: 1. o protagonista (em teoria, Detona Ralph) não é tão forte quanto o personagem da Vanélope, mas nem de longe – assisti a versão legendada, por sinal, e a dublagem de Sarah Silverman é genial; 2. o problema enfrentado pelo núcleo secundário do filme (Conserta Félix e Sargento Calhoun contra o vírus que se espalha) mostra-se muito maior de início do que realmente se apresenta durante o filme, criando um desequilíbrio narrativo. Discordo do seguinte: acho a direção de arte do filme absolutamente sensacional. O mundo de Sugar Rush é incrível e perfeito para mim – o que é aquela caverna de coca-cola e menthos? – e eu realmente não enjoei de olhar para ele. Talvez menos por sua beleza ou excesso de cores e fofisse, mas mais pela genialidade em reproduzir ideias e objetos em forma de doces. Ah! E o curta é lindo, sinal de que a Disney vem aprendendo com a Pixar direitinho (um dia eles chegam lá).

    • É verdade! Também adorei aquela ideia do menthos com coca-cola, e achei que a forma como construíram a caverna ficou ótima. Na apresentação do Corrida Doce eu fiquei naquelas “nossa queria jogar isso aí”, mas lá pela milésima confusão criada pelo Rei Doce acabei enjoando, e algumas cenas de corrida me deixaram meio tonta (como quando eu vi Speed Racer).
      A trama envolvendo o inseto bizarro só serviu mesmo de MacGuffin pro casalsinho, durante o filme eu até tinha esquecido dele.
      Queria tanto ter visto legendado, principalmente pela voz da Jane Lynch como a Sargento, mas difícil conseguir isso em Belo Horizonte, acho que só tinha um horário em algum shopping bem longe de mim.

      • Eu fui ver legendado pelo John C. Reilly, que eu adoro. Mas a Silverman me impressionou. Esse negócio de poucas cópias legendadas é irritante. Mesmo aqui em S. Paulo, na semana do dia 11, havia apenas 2 salas…

  2. Pingback: O complexo do Buzz Lightyear: o que eu aprendi com Toy Story | O filme da tarde

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