Da série grandes injustiças do Oscar- Confidências à meia noite (1959)


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A gente sabe que o Oscar é um prêmio injusto, que se orienta mais por política que por mérito. Tanto que a diversão favorita de muitas pessoas em época de premiação é fazer listas separadas de filmes favoritos e dos que provavelmente irão ganhar pela lógica da academia. Mesmo assim, às vezes eu me surpreendo muito de ver o abismo de qualidade entre o vencedor e seus concorrentes, como aconteceu em 1960 quando Confidências à meia-noite (Pillow Talk)  ganhou na categoria Melhor Roteiro Original.

O filme é uma comédia romântica com Doris Day e Rock Rudson numa época pré-revolução sexual. Estava na disputa desse mesmo ano a também comédia descompromissada Anáguas a bordo (Operation Petticoat), com Cary Grant e Tony Curtis. Mas olha só o resto dos concorrentes:

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Os Incompreendidos (Les quatre cents coups)– Dirigido por Truffaut, roteiro dele mesmo com Marcel Moussy.  Um dos marcos iniciais da Nouvelle Vague.

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Morangos Silvestres (Smultronstället)– Escrito e dirigido por Bergman.

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Intriga internacional (North by Northwest)– Roteiro de Ernest Lehman, dirigido por Hitchcock.

Esses três filmes volta e meia aparecem em listas de melhores de todos os tempos, ou pelo menos de melhores dos seus diretores. Tudo bem que os dois primeiros são estrangeiros e as chances que eles tinham de ganhar era realmente ínfimas, mas Intriga Internacional era prata da casa.

Não é por ser comédia que eu acho Confidências fraco, mas a história realmente não tem nada de mais, até pros padrões da época. Foipillow talk o filme que deu a Doris Day a fama de “virgem tardia” já que ela passa quase o tempo inteiro resistindo às investidas do Rock Rudson (e fez isso em mais dois outros filmes).

Os personagens principais eram desconhecidos que dividiam a mesma linha telefônica, algo que realmente acontecia em meados do século XX, por mais estranho que pareça.

Enquanto que ela era uma decoradora cheia de dignidade, ele era um compositor da Broadway galanteador, que passava o dia ocupando a linha cantando pras suas namoradas. Lógico que eles vão se odiar e lógico também que, segundo os cânones da comédia romântica,  isso só pode dar em casamento. Porque faz todo sentido que as melhores moças até resistam, mas acabem irremediavelmente apaixonadas por sujeitos que mentiram pra elas o filme inteiro. Nós aprendemos que o poder do amor é capaz  de regenerar o pior dos cafajestes.

Pra não dizer que eu achei tudo ruim, o Rock Rudson é realmente  um “pão”, como diria minha avó. O uso das telas divididas é bem divertido também, seja pra driblar a censura e dar a impressão de que o casal principal divide a banheira ou a cama, ou pra ilustrar as diversas conversas telefônicas. Se bem que nesse último caso já foi repetido tão à exaustão que já não tem muita graça.

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Em certo momento do filme, o Rock Rudson tenta convencer a mocinha de que o sujeito com quem ela vai sair (que na verdade é ele mesmo disfarçado) é gay. Ele não usa essa palavra, mas diz que ele pode “ser apegado demais à mãe, ou gostar demais de fofocas e livros de receitas”. Tudo fica especialmente estranho considerando que o próprio ator era homossexual, embora não assumido na época. Seria uma estratégia do estúdio pra desmentir os rumores?

Muitas outras bizarrices acontecem ainda.  A mocinha ser agarrada à força por um cara que lhe dava carona e além de permanecer no carro, ela ainda aceita o convite dele pra ir pra um bar! Bar este que se chamava “Copa del Rio” e que recria uma atmosfera tipicamente brasileira com dançarinos de merengue que tocam uma espécie de mambo! Quando ela descobre toda a verdade sobre o possível homem da sua vida, é estapeada por um amigo quando chorava convulsivamente! E por fim, um médico está convencido de que um certo personagem (homem) possa estar grávido e se dedica a ir atrás dele!

Não dá realmente uma revolta ver que uma pérola dessas esteve na frente de três clássicos do cinema?

E Doris Day não é a cara da Xuxa?

E Doris Day não é a cara da Xuxa?

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4 thoughts on “Da série grandes injustiças do Oscar- Confidências à meia noite (1959)

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