Como estragar seu filme com uma trama romântica (em 3 lições)

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O cinema sabe que as pessoas adoram se apaixonar, tanto que desde o começo procurou produzir filmes que deixassem todo mundo suspirando por histórias emocionantes e inverossímeis que poderiam acontecer com qualquer um. Principalmente com as esperançosas mocinhas que costumam ser o público alvo.

Mas até as pessoas mais românticas precisam de outras atividades entre uma paixão avassaladora e outra. Isso pode incluir trabalhar, estudar, cuidar da família, assaltar um banco, fugir de casa, assassinar um desafeto, virar astro do rock, conquistar um país, publicar um livro, testemunhar um crime, etc. Existe muita vida além de encontrar alguém pra chamar de seu.

Mesmo assim, alguns filmes parecem pensar que uma premissa emocionante não é o suficiente pra garantir público. O personagem principal só pode completar a jornada se encontrar o par perfeito pelo caminho. Isso tudo com muitos clichês de comédias e dramas românticos que não combinam em nada com o que a trama tinha sido até então. Essa foi a receita pra estragar (ou quase) esses filmes aqui.

O Terminal (The Terminal, 2004)

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Tom Hanks ficou preso no aeroporto de Nova York porque deu azar de um golpe de estado em sua terra natal (um país fictício do Leste Europeu) coincidir com sua viagem. Apátrida e sem previsão pra poder deixar o prédio, ele aprende a se virar por lá mesmo, com formas criativas de ganhar dinheiro, dormir, comer, e passar o tempo.

Pra mim parecia trama suficiente pra preencher bem as duas horas de filme, mas sabe-se lá por que resolveram colocar um interesse romântico no meio.

Ele se apaixona pela aeromoça feita pela Catherine Zeta-Jones, o que além de não acrescentar nada à trama também torna o filme uma chatice. A partir daí seguem desentendimentos constrangedores, grandes demonstrações de amor piores ainda e a sensação de que ela só tá dando bola pra ele porque, enfim, ele é o Tom Hanks e isso tava no roteiro.

O Primeiro Mentiroso (The Invention of Lying, 2009)

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Existe uma realidade onde ninguém nunca, jamais, em tempo algum faltou com a verdade. As pessoas são causticamente sinceras e os filmes são todos documentários baseados em dados históricos. A única coisa positiva e verdadeira que a Coca Cola tem a dizer de si mesma é que é muito famosa e até  propaganda da Pepsi tem que dizer ” Pra quando não tiver Coca”.

Daí um sujeito (Ricky Gervais) consegue contar a primeira mentira e se torna um deus, podendo conseguir tudo o que quiser abusando da confiança dos outros. O que ele faz com esse poder torna o filme hilário.

Mas em direção ao fim a história resolve se transformar numa comédia romântica banal, com direito a corridinha de “parem o casamento”, declarações de amor atropeladas, personagens mudando de ideia em cima da hora e uma aborrecida lição de moral.

Amor e outras drogas (Love and Other Drugs, 2010)

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Eu sei que não posso alegar ter sido enganada, já que o título tinha a palavra “amor” no meio. Minha lamentação é mais pelo que o filme poderia ter sido, considerando que teve como ponto de partida as memórias de alguém que realmente trabalhou na indústria farmacêutica durante os anos 90.

O personagem do Jake Gynllenhaal começa mostrando as picaretagens dos laboratórios pra emplacar seus remédios. Ele trabalha pra Pfizer tentando vender Zoloft (um antidepressivo), e  pra isso não vê nada de mais em paquerar secretárias de consultórios e oferecer a médicos “carona” em guarda-chuvas patrocinados em dias chuvosos. Toda essa “mendicância” muda com o sucesso do Viagra.

Não há nada no drama ” tô doente mas não quero caridade” da Anne Hathaway que me faça acreditar na necessidade desse romance meloso. Acho que a inclusão do personagem dela foi mais por falta de coragem mesmo de discutir de verdade um tema mais sério.

Você agora está pensando que eu sou uma insensível sem coração que quer eliminar o romance do cinema mundial, né? Então confira minhas opiniões sobre outras comédias românticas.

Jane Austen e o legado da comédia romântica Parte 1 e Parte 2

Clássicos de comédia romântica-Pare esse casamento!

Da série grandes injustiças do Oscar- Confidências à meia-noite (1959)

Também acha que romance é algo supervalorizado nesse mundo? Acho que esse post logo abaixo é pra você.

A arte de ficar sozinha no Dia dos Namorados

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8 thoughts on “Como estragar seu filme com uma trama romântica (em 3 lições)

    • Eu tenho uma política de nunca deixar de ver um filme até o final por pior que esteja achando, mas esse eu confesso que adiantei várias partes pra conseguir acompanhar mais ou menos. A última vez que isso tinha acontecido foi com O Sacrifício do Tarkovski 🙂

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