Drummond e a poesia do cinema

Carlos Drummond de Andrade

No meu tempo de escola, “Balada do Amor através das Idades” era um dos meus poemas favoritos. Eu adorava estudar história, e toda aquela epopeia do Drummond era uma diversão pra mim. Lembro que a interpretação corrente na época, por parte da professora e do livro didático, era de que só a última parte se referia ao cinema, as outras seriam mesmo a versão do poeta pra eventos históricos.

Relendo aqueles versos há algum tempo, eu parei pra pensar que na verdade todo ele é cinematográfico, e eu até consigo imaginar os filmes a que eles possam estar se referindo. Possivelmente são os épicos mudos das primeiras décadas no século XX, já que esse poema foi publicado  na coletânea “Alguma Poesia” em 1930.

Drummond era um entusiasta de cinema, e chegou a escrever com muito pesar sobre o fechamento do Cine Odeon de Belo Horizonte em 1928, no poema “O fim das coisas”.

Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia. Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(Amadurecerei um dia?)

Existe também uma crônica publicada em 1930 no jornal Minas Gerais chamada “Ir ao cinema”. O engraçado é que já nesse tempo ele falava do chatos que querem impor a todo mundo a interpretação deles. O texto dá pra encontrar no blog Letras inverso e reverso, num slideshow lá no meio do post.

Com base em tudo isso, pensei em brincar de adivinhar os filmes de cada estrofe de “Balada”. Meu trabalho “arqueológico” foi todo feito no Google, colocando como palavras chaves trechos do poema e vendo se a data correspondia. Acabei fazendo uma seleção pelos mais prováveis, ou mais famosos, mas também nada impede que o Drummond tenha feito só um apanhado geral de todos os filmes que ele via. Não tenho como saber se acertei, ou pelo menos cheguei perto, e se alguém aí souber de um texto em que o autor esclarece tudo, por favor, manda pra mim.

Lá vai:

the fall of troy

Eu te gosto, você me gosta 
desde tempos imemoriais. 
Eu era grego, você troiana, 
troiana mas não Helena. 
Saí do cavalo de pau 
para matar seu irmão. 
Matei, brigámos, morremos.

Pra esse primeiro trecho eu começo chutando A queda de Troia (La caduta de Troia) filme italiano de 1911. O diretor foi Giovanni Pastrone, que depois faria o bem mais influente Cabíria (1914). A história é a que a gente já conhece, com os troianos bobinhos dando origem à expressão “presente de grego”.

quo-vadis-1925-02-g

Virei soldado romano, 
perseguidor de cristãos. 
Na porta da catacumba 
encontrei-te novamente. 
Mas quando vi você nua 
caída na areia do circo 
e o leão que vinha vindo, 
dei um pulo desesperado 
e o leão comeu nós dois.

Esse aqui eu sou até capaz de apostar que é Quo Vadis, nas versões italianas de 1912 ou 1925 ( as duas foram um grande sucesso). Nem sei se existe outra história de um romano, que se apaixona por moça cristã, que é jogada pelada aos leões, porque o imperador Nero está usando os cristãos como bode expiatório. E isso ainda renderia mais um filme em 1951, dessa vez americano e com a Deborah Kerr.

the back pirate

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Meu palpite aqui é O pirata negro ( The black pirate), filme americano de 1926, mesmo com o pirata principal não sendo “mouro”, mas um nobre europeu. De qualquer modo, ele invade um navio e acha uma mulher por lá, cuja “pureza” ele resolve proteger dos outros.

Gish, Lillian (Orphans of the Storm)_03

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Esse aqui foi mais difícil,  e nenhuma moça que tenha “cismado em ser freira” durante a Revolução Francesa apareceu na minha lista. Acabei optando por Órfãs da tempestade (Orphans of the storm,1921) dirigido por ninguém menos que D.W.Griffith, aquele mesmo do polêmico Nascimento de uma nação (Birth of a nation, 1915). Na história duas irmãs passam por maus bocados na Paris revolucionária, sendo que uma delas é constantemente assediada por nobres que caem de amores pelo seu ar de mocinha pura e casta.

Clara Bow flapper 4

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Tá, eu sei que a moça da foto não é uma “loura notável”, mas eu acho que Drummond aqui se refere a vários filmes parecidos, e não a um específico. Daí que escolhi a atriz Clara Bow, famosa principalmente pelo filme It de 1927 e que ditou moda por ser a primeira “it girl”, além de influenciar bastante no comportamento das moças avançadinhas da época, chamadas de “melindrosas” (ou flappers). Ah, e ela era da Paramount. 

Depois disso tudo, a gente vê que os épicos foram feitos pra complicar a vida dos amantes, enquanto que nos filmes que se passam na “atualidade” tudo se resolve rapidamente num “te abraço, beijo e casamos” de um típico final feliz hollywoodiano.

E você? Concorda com essa seleção? Viu algum desses? Tem outros filmes pra sugerir? Comenta aí, vai.

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5 thoughts on “Drummond e a poesia do cinema

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