Holy Motors (2012)

holy-motors-3


Quando a gente assiste a muitos filmes, geralmente chega aquele momento em que vemos um que parece diferente de todos os outros, e até muda o conceito que tínhamos de cinema até então. Pra muita gente parece que esse filme foi Holy Motors (2012), a julgar pelos elogios que vi por aí ao modo como o filme foi construído: sem uma trama propriamente dita, com partes que parecem independentes entre si e cenas surreais.

A questão é que não foi o diretor Leos Carax que inventou nenhuma dessas coisas, nem o uso de todas elas juntas. Só pra se ter umaum_cao_andaluz3 ideia, o marco do cinema surrealista Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou) de Buñuel já está fazendo 83 anos, e tinha uma estrutura bem parecida.

O mesmo conceito já foi usado em O Fantasma da Liberdade (Le fantôme de la liberté, 1974) do mesmo diretor, além de aparecer também em Império dos Sonhos (Inland Empire, 2007) de David Lynch e até em O Sentido da Vida (The Meaning of Life, 1983) do Monty Python.

Sendo assim, não dá pra glorificar Holy Motors só por ter uma aparência diferente da maioria dos filmes que entram em cartaz todos os dias, isso por si só não diz nada. É preciso perguntar o que ele faz com isso, se traz algo de novo, se a experiência vale a pena. 

O que dá pra dizer da trama é que existe um personagem, Oscar (Denis Lavant) que transita em várias situações diferentes. A princípio pensamos que ele é só um executivo francês, já que usa terno, sai de uma casa de luxo e anda de limousine, mas os “trabalhos” que ele realiza estão bem longe disso. É como se ele fosse um ator encenando pra ninguém, e cada parada tem sua própria lógica, como se fossem filmes distintos. Parece legal né? Até é, mas eu acho que onde sobrou pretensão, faltou paciência pra editar melhor o material todo.

Oscar voltando de mais um "compromisso"

Oscar voltando de mais um “compromisso”

E aprontando as maiores confusões com a sua motorista Céline (Edith Skob)

E aprontando as maiores confusões com a sua motorista Céline (Edith Skob)

O filme demora demais pra engrenar, é um daqueles casos em que não é incomum ver todo mundo saindo da sala de cinema nos primeiros 15 minutos. Eu assisti no Belas Artes aqui em BH, que tem a tradição de ser alternativo, daí acho que por isso ninguém jogou a toalha até bem pertinho do fim, quando eu vi um casal desistindo.

o_passageiro_do_futuroUma das primeiras cenas envolve um ator com aquela roupa de captura de movimento ( mais ou menos como a que o Andy Serkis usou pra fazer o Gollum de Senhor dos Anéis), até é interessante e tal, mas aí  chega uma outra mulher vestida de modo parecido, e os dois passam a encenar uma cena de sexo simultaneamente real e virtual.

Não teve como não lembrar dessa cena bizarra aí ao lado, que aconteceu na ficção científica extremamente datada O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man, 1992)

Algumas passagens são bem divertidas, como o caos que Oscar cria em um cemitério durante uma sessão de fotos, especialmente pela criatividade das lápides e pela interferência de uma das assistentes do fotógrafo. Também gostei do “pai busca filha na festa”, “sobrinha se despede do tio moribundo” e dos músicos de acordeom que vão se encontrando enquanto andam, no maior estilo daquele hit do ano passado da Banda mais bonita da Cidade. O final também é ótimo.

O chato é que nem sempre cada uma dessas esquetes termina onde devia, e vai se arrastando, ficando pedante e aborrecida e acrescentando uns elementos que só servem pra chocar (até agora não entendi a necessidade daquele sujeito pelado e “em prontidão”). E daí que cada uma delas reflete um gênero de filme? Community faz isso o tempo todo, de forma muito melhor, e não atrai todo esse hype.

A Kylie Minogue faz uma participação improvável, cantando inclusive. Uma música dela bem famosa chega a tocar em um celular e numa festinha adolescente. Eva Mendez também aparece cantando, mas seu papel é menor e podia ter sido feito por qualquer rostinho bonito.

KylieMinogue_1

Kylie Mnogue solta a voz, e o filme de repente vira um musical

No fim das contas, não é um filme ruim, mas podia ter sido bem melhor. Não mudou a minha vida e acho que nem vou lembrar muito daqui a algum tempo. E se tem impactado tantas pessoas, que pelo menos sirva pra chamar a atenção delas pra filmes muito superiores.

E desde 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007) que eu já devia ter parado de confiar tanto nesse povo do Festival de Cannes.

Anúncios

2 thoughts on “Holy Motors (2012)

Deixe seu palpite aqui. O poder é de vocês!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s