Curtindo a Vida Adoidado, muito além da Sessão da Tarde

ferrismuseum

O pessoal da minha geração,  hoje com vinte e tantos ou trinta e poucos anos, costuma lembrar com saudade os áureos tempos da Sessão da Tarde, aquele período encantado da nossa juventude em que não havia tantos filmes de macacos e cachorros na TV.

Durante o revival oitentista de alguns anos atrás era comum ver milhões de comunidades do Orkut com esse tema, lembrando sempre  a condição miserável de todas as outras crianças que vieram depois de nós. A capa da maioria delas era justamente o Ferris Bueller (Matthew Broderick) de Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller’s day off, 1986), um filme tão amado quanto repetido na programação da Globo.

Não é difícil  entender porque esse filme seduzia tanta gente. Uma trama que envolve um adolescente fingindo doença pra escapar de ir pra aula, saindo pela cidade pra curtir com os amigos e driblando todos que resolvem atrapalhar seus planos só pode fazer o maior sucesso com crianças e adolescentes.

Quem não queria ter toda aquela coragem, habilidade e cara-de-pau? Ou tendo tudo isso, também a sorte de escapar sempre por um triz de ser pego? E ainda roubar a cena de uma forma apoteótica no meio de uma parada?

juventude20transviadaAs peripécias de Ferris fizeram parte da minha memória afetiva por muitos anos, mas foi assistindo já adulta (na Netflix, inclusive) que eu pude realmente entender tudo o que o filme significa. A gente nem desconfiava, mas Curtindo a vida adoidado é o filme mais representativo da juventude americana dos anos 8o, como Sem Destino ( Easy Rider, 1969) e A primeira noite de um homem (The Graduate, 1967) foram pra década de 60 e Juventude Transviada (Rebel Without a cause, 1955) pros anos 50.

O universo de Ferris é a Era Reagan, que durou quase a década inteira, e foi uma época marcada pelo conservadorismo e reação à revolução cultural dos anos 60 e 70. O império Soviético entrava em colapso, e as grandes ideologias iam sofrendo também. Não é a toa que Ferris, em seu monólogo do chuveiro, faz pouco caso do assunto da prova que deveria estar fazendo naquele dia.

Vou transcrever aqui duas falas que refletem bem o tipo de jovem que ele e seus contemporâneos eram. A tradução é minha, as originais estão no IMDB.

“Eu realmente tenho um teste hoje, isso não é enrolação. É sobre o socialismo europeu. Mas realmente, que importância ferristem isso? Eu não sou europeu. Não tenho planos de ser europeu. Então quem dá a mínima se eles são socialistas? Eles poderiam ser fascistas anarquistas, isso não muda o fato de que eu não tenho um carro.”

“Não que eu condene o fascismo, ou qualquer ‘ismo’ de qualquer maneira. ‘Ismos’ que na minha opinião não são bons. Uma pessoa não deveria acreditar em um ‘ismo’, ela devia acreditar em si mesma”

Falando em “acreditar em si mesmo”, a “tribo” surgida nessa época é a dos yuppies, jovens que valorizavam o esforço individual,wwwcinemanafaixacomoseg principalmente pra se tornarem ricos, bem sucedidos, e consumidores dos produtos na moda. Já vimos muitos desses na própria Sessão da Tarde, em filmes como O segredo do meu sucesso (The secret of my success, 1987), Uma secretária de futuro (Working girl, 1988) e Os reis da praia (Side Out, 1990). 

Em Curtindo, o símbolo maior do materialismo é a Ferrari do pai de Cameron, que ele amaria mais que a esposa e o filho.

Ferris é muito menos revolucionário do que parece, especialmente considerando os jovens da geração anterior à dele. Ele até  reconhece as falhas no sistema, mas não se propõe a transformar nada, seus pequenos atos de desobediência têm no máximo o poder de alterar a vida de algumas pessoas ao redor dele (como a irmã e o melhor amigo).

Ele sabe que vai acabar sendo um adulto como os outros, talvez até mesmo um yuppie , e por isso tem urgência de aproveitar o momento da adolescência, em que ainda se exige pouco dele.

Assim, perdoamos as transgressões dos três amigos basicamente por dois motivos. O primeiro é que eles não chegam a fazer nada de mais, daria até pra dizer que estão aproveitando melhor seu tempo do que se estivessem na escola, já que entre almoçar num restaurante caro e visitar um ponto turístico da cidade, eles também vão ao museu.

O segundo é que os adultos desse filme, assim como em outros do John Hughes, são negligentes, desatentos ou subestimam os mais jovens, e portanto merecem ser enganados.

jeannieA escola é desinteressante e autoritária, os pais de Cameron não dão a menor bola pro filho, e os de Ferris, que parecem atenciosos, na verdade privilegiam e protegem mais o filho que a filha, o que nunca pode acabar bem.

Mesmo os outros adolescentes são tão sem propósito e alheios à realidade que iniciam uma campanha gigante pra salvar quem eles nem têm certeza de que está realmente doente. 

Nesse contexto, só um outsider como o personagem drogado do Charlie Sheen pra agir como um guru, e convencer Jeannie (Jennifer Grey) de que ela não vai conseguir encontrar lógica ou justiça numa realidade como essa. Coisa que o Ferris já tinha conseguido descobrir sozinho.

Pra John Hughes, os adolescentes não vão conseguir mudar o mundo, mas podem sobreviver a essa fase fazendo suas pequenas e inofensivas rebeliões.

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5 thoughts on “Curtindo a Vida Adoidado, muito além da Sessão da Tarde

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