Adaptando o Sítio do Picapau Amarelo

Monteiro Lobato andou muito falado nos últimos tempos, mas infelizmente não por bons motivos. Como todo mundo já deve saber a essa altura, o livro “Caçadas de Pedrinho” foi acusado de racista e considerado inadequado pra ser distribuído em escolas públicas sem uma nota explicativa. A justificativa seriam os trechos em que Tia Nastácia é chamada de “macaca de carvão”, entre outros apelidos pouco lisonjeiros. A polêmica chegou ao STF e muito se disse sobre esses nossos tempos de politicamente correto.

Como alguém que  passou boa parte da infância encantada com a turma do sítio, tendo lido quase todos os livros, posso dizer que racistas eles eram sim. Do mesmo modo que uma série de outros livros maravilhosos também eram racistas, sexistas, homofóbicos, antissemitas e preconceituosos em geral, porque, enfim, refletiam o pensamento da época em que foram escritos.

No caso de Monteiro Lobato, há indícios de que ele teria ido até além do pensamento geral do seu tempo. A questão foi muito parecida com o que aconteceu com “Tintim no Congo“, do belga Hergé, e que eu li com uma contextualização que considerei suficiente. Acho que seria realmente um crime privar as crianças desses livros, mas acho que elas também têm direito de conhecer o que estão lendo, e que certas coisas antes consideradas como naturais são inaceitáveis hoje.

Mas enfim, minha intenção aqui é falar de outra coisa, das adaptações das histórias do pessoal do Sítio pro cinema  e pra televisão. Eu nunca fiquei muito satisfeita com as adaptações mais famosas, feitas pela Globo nos anos 70 e 80 e depois nos anos 2000 (existem versões feitas pela Tupi, Cultura e Bandeirantes, mas nunca vi qualquer registro).

Acho que isso se deve em parte ao fato de eu não ter visto nenhuma das duas quando criança, já que na primeira eu nem tinha nascido e na segunda eu já era adolescente. Não tendo aquele “filtro” da infância que nos faz sentir saudade até de coisas horríveis como Ursinhos Carinhosos, eu pude ter uma opinião mais isenta. 

Minha grande crítica é que não há uma sensação de perigo, ou um vilão de verdade pra combater, tudo é extremamente infantilizando pra parecer só uma confusão divertida, como em Caça Talentos. Eu sei que a linguagem televisiva tem lá suas simplificações, mas isso acaba estragando o grande apelo de tudo, que é o de que Pedrinho, Narizinho e Emília vivem aventuras bem reais, como nas histórias do Peter Pan, Dom Quixote e de mitologia grega contadas por Dona Benta.

Mas o que eu acho pior de tudo é a “domesticação” de personagens como o Saci e a Cuca, que além de fazerem parte da ficção de Monteiro Lobato também pertencem à mitologia brasileira. No livro de 1921 “O Saci”, o personagem título deixa bem claro que não é escravo de ninguém, e que só vai cooperar com Pedrinho se esse o libertar.

Já a Cuca é um monstro cruel, algo a ser temido, e que representa o desafio final de Pedrinho e do Saci. Nas versões pra tv a Cuca é uma vilã risível e o Saci é uma espécie de capacho dela, os planos dos dois nunca dão certo e tudo termina num grande pastelão.

Histórias pra crianças no estilo “saga do herói” precisam de um elemento assustador. Pense nos desenhos da Disney sem Pinóquio se transformando em burro, Branca de Neve fugindo horrorizada pela floresta, Ariel perdendo a voz ou Simba achando que foi o responsável pela morte do próprio pai. Crianças gostam de  sentir medo desde que o herói possa vencer tudo no final, é como se elas mesmas fossem capazes de resolver os próprios problemas.

Monteiro Lobato sabia de tudo isso, tanto que “O Saci” pode ser considerado um tratado sobre o próprio medo, e um verdadeiro ritual de passagem pra Pedrinho. O menino passa a lidar com tudo o que o assustava antes, e nas discussões “filosóficas” com o Saci na floresta passa a entender quão humano é reagir dessa  forma àquilo que não se entende.

E olha que praticamente todas as criaturas do folclore brasileiro resolvem dar as caras, como a mula-sem-cabeça, a caipora e a Iara.

A primeira adaptação do Sítio do Picapau Amarelo foi justamente o filme “O Saci”, feito por Rodolfo Nanni em 1951, e a que eu considero a melhor feita até hoje. Achei que ele conseguiu combinar muito bem a leveza de um filme pra criança, mostrando a infância maravilhosa dos meninos do sítio com a tensão vinda do ataque da Cuca a Narizinho e do contato de Pedrinho com as criaturas da floresta, sem falar que tem a Emília mais fofa de todas.

A cena em que Narizinho é transformada em pedra eu achei especialmente angustiante (apesar da limitação dos efeitos), e o mais importante, com uma Cuca capaz de inspirar pavor.

Só achei desnecessário mostrar outros personagens além de Pedrinho vendo o Saci, o que acaba com a ambiguidade de se pensar tudo como um sonho dele ( num esquema meio O labirinto do Fauno). O filme está disponível aqui na íntegra e acho que vale a pena assistir.

Houve um tempo em que eu torcia pra que algum produtor estrangeiro se interessasse por essas histórias e fizesse um filme com toda a seriedade e efeitos especiais que elas merecem. Mas daí eu pensei bem e vi que eu morreria do coração se visse o Saci substituído por um duende e a Cuca por um Troll ou um Ogro.

Só me resta torcer mesmo que o cinema nacional tenha essa ideia algum dia, e que enquanto isso as crianças possam ter contato com esse mundo maravilhoso e conhecer realmente como Monteiro Lobato representou, pro bem e pro mal, a cultura brasileira.

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