Confidências de uma itabunense no cinema

Os cinemas de rua da minha cidade já estavam em decadência quando eu era criança. Só assisti a dois filmes até que eles deixassem de existir completamente, o primeiro eu contei aqui, e o segundo foi Uma babá quase perfeita, numa Sexta-Feira Santa de 1994. Fomos eu, minha mãe e minha irmã mais nova, e além de nós só havia um casal de namorados na sala. Eles certamente esperavam ser os únicos daquela sessão, mas mesmo assim não se constrangeram com a nossa presença e se agarraram o filme inteiro. Pouco tempo depois esse mesmo cinema, como tantos pelo país, acabou se transformando em Igreja Universal. 

Sendo assim, por boa parte da minha infância e adolescência, eu só pude ver as estreias durante as férias que passava em Salvador, ou quando pegava carona em viagens a trabalho do meu pai pra poder ver filmes específicos. Em 2001 eu fui morar lá pra cursar o terceiro ano do ensino médio, e peguei o hábito a ir ao cinema todas as tardes de sábado, ainda que só estivessem passando filmes muito ruins (foi assim que vi aquela bomba que é Pearl Harbor).

Fui me acostumando a ir sozinha, sem depender de amigos, colegas ou ninguém da família. Acabei preferindo assim, já que podia ver o filme que quisesse, em qualquer horário, e passar vários minutos escolhendo o lugar com a melhor visão e onde o som fosse mais confortável. O cenário era meio parecido com aquele episódio de The Big Bang Theory em que o Sheldon irrita todo mundo ao escolher um lugar pra sentar , exceto que eu tinha vergonha de ficar fazendo aqueles barulhos estranhos.

Percebi que estava indo longe demais quando me recusei a mudar de lugar pra permitir que pai e filho sentassem juntos (afinal, eu tinha chegado cedo justamente pra pegar o melhor lugar). Como represália, eles ficaram o filme inteiro passando pipoca de um lado pra outro, bem em cima de mim.

Quando voltei a morar em Itabuna, na época de faculdade, o shopping da cidade já contava com um cinema há pouco menos de um ano. Isso me deixou bastante feliz, mas ao mesmo tempo me trouxe uma realidade com a qual eu não estava muito habituada, o “ver filme com a galera”. Passei a receber convites pra ver filme em bando, e eu não conseguia admitir que mais de quatro pessoas de um mesmo grupo pudessem realmente aproveitar o que estavam assistindo.

Pra começar, o filme geralmente já estava decidido antes que eu pudesse dar uma opinião ( e eu gosto de escolher até os filmes que sei que são ruins), além de que é um horror achar bons lugares pra tanta gente e evitar que as conversas paralelas distraiam minha atenção. Eu também não gosto de comer pipoca no cinema ( dá sede, suja a mão, deixa cheiro e faz barulho), mas se alguém mais compra e me oferece, eu não consigo deixar de aceitar.

Hoje Itabuna voltou a ficar sem cinema. Fico triste mesmo não tendo sido diretamente afetada, já que hoje moro em Belo Horizonte. Ainda prefiro ver filmes sozinha, ou com meu marido, que é uma companhia ótima ( e sempre troca de lugar comigo quando eu peço), mas  passei a lembrar com saudade daquela época em que eu lutava pra deixar minhas manias de lado. E fico feliz de não ter permitido que elas me impedissem de ter tão bons momentos com os meus amigos.

Pra uma pequena história dos cinemas em Itabuna, ver esse link aqui.

Anúncios

5 thoughts on “Confidências de uma itabunense no cinema

  1. O shopping fez uma reforma de ampliação, recebeu um monte de lojas novas e deixou o cinema pra lá. Diz a lenda que daqui a um tempo eles colocam o cinema de novo, mas não sei não. O pessoal de lá agora tá dependendo só do Santa Clara. Triste né?

  2. Pingback: Pequenos blogs, grandes crises « O filme da tarde

Deixe seu palpite aqui. O poder é de vocês!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s