Jane Austen e o legado da comédia romântica (parte 2)

Continuando o que eu dizia no post anterior, existem dois jeitos de ver a obra de Jane Austen.

Um é prestar atenção nas histórias em si, que envolvem  as aventuras e desventuras amorosas de suas protagonistas, com muitos desentendimentos, situações bizarras, reviravoltas e divertem tanto hoje como naquele tempo. Acho que até mais, considerando que o número de  “Austenites só faz aumentar.

A outra é considerar o trabalho da autora uma descrição minuciosa da sua própria sociedade, uma sátira bem feita aos valores dessa época, especialmente em matéria de corte e casamento.

Eu vi poucas adaptações desses livros que se passavam no período original, só a versão 1995 de “Razão e sensibilidade” (com Emma Thompson, Kate Winslet, Dr. House e Professor Snape) e a de 2005 de “Orgulho e Preconceito” ( com Keira Knightley e o Presidente Snow), além de alguns episódios da série da BBC baseada neste último. Achei que foram boas versões, mas bem mais solenes do que talvez fosse a intenção da autora,  a caracterização de época pode ter pesado.

O diário de Bridget Jones ( Bridget Jones’s Diary, 2001) e especialmente As patricinhas de Beverly Hills ( Clueless, 1995),  mesmo se passando num período mais atual e mudando bastante a história, pegaram melhor o espírito. Os dois filmes são comédias românticas leves e divertidas, ao mesmo tempo em que criticam o contexto social dos seus personagens. Vou falar um pouquinho de cada um deles, com alguns spoilers, mas  nada que não pudesse ser deduzido naturalmente.

O diário de Bridget Jones ( versão de Orgulho e Preconceito)

No livro de Austen, Elizabeth Bennet (Eliza ou  Lizzie para os íntimos) é a grande mente da sua família, não leva desaforo pra casa, se dispõe a bater boca com qualquer um (por mais aristocrata que seja) e não deixa crítica nenhuma abalar a opinião que tem de si mesma.

Ela também prefere ficar solteira a casar por conveniência, além de achar que tem muito mais a fazer do seu tempo do que caçar marido. Por todas essas características, é possivelmente a heroína mais querida pelos fãs (certamente é a minha).

Bridget Jones é insegura, não está satisfeita com a própria aparência nem com as coisas que conquistou na vida, mas tem em comum com a sua equivalente austeniana o fato de ser adorável enquanto fala mais do que devia. Seus problemas acabaram gerando identificação no mundo inteiro, o que fez com que tanto o filme quanto o livro em que foi baseado fossem grandes sucessos.

As duas também compartilham o fato de não serem consideradas  grandes partidos pelas convenções casamenteiras de suas épocas. Eliza não tem berço, não vai ter direito à herança do pai ( extravagâncias das leis daquele tempo), é menos bonita que a irmã mais velha e é constantemente envergonhada pelo comportamento frívolo da sua família.

Bridget, por sua vez, já passou dos trinta anos, é considerada como acima do peso, fuma, não tem uma carreira de sucesso e tem um talento sobre-humano pra se colocar em situações constrangedoras, no que é ajudada também por sua mãe.

Ambas encontrarão o amor em sujeitos chamados Darcy, desprezados de início ( e que também as desprezaram de volta), mas em quem vão descobrindo qualidades ao longo do tempo de convivência. São homens que também acabam dispostos a aceitá-las do jeito que são , sem se importar com a opinião alheia.

As patricinhas de Beverly Hills ( versão de Emma)

Emma Woodhouse tem uma situação totalmente diferente da de Eliza, e certamente as duas se odiariam, caso se encontrassem. Ela é rica, bem nascida, principal herdeira de seu pai ( só tem uma outra irmã, que já é casada) e senhora da própria casa ( a mãe morreu quando ela era pequena).

Não é má pessoa, o que se vê em todo o carinho e paciência que tem com o pai hipocondríaco, e passa longe de ser burra, já que tem consciência de não precisar casar pra manter sua situação econômica. Aliás, ela chega a imaginar um futuro feliz pra si mesma sem marido e sem filhos, o que é um tabu até hoje! Por outro lado, seus privilégios a impedem de compreender realidades que não sejam a sua.

Mesmo pros ricos, a vida na Inglaterra rural do século 19 era bastante monótona. Daí que Emma, munida de muita boa intenção e vontade de matar o tédio, resolve bancar a casamenteira na vizinhança, causando  confusão e problemas, inclusive pra si mesma. A única pessoa que não passa a mão na sua cabeça é Mr. Knightley, seu concunhado e grande amigo, apesar de os dois discordarem e discutirem o livro inteiro. Dá trabalho até eles descobrirem que sempre foram apaixonados.

Cher  Horowitz é em quase tudo semelhante a Emma, mesmo considerando que o seu mundo é a Los Angeles dos anos 90, onde pode gastar seu tempo fazendo compras em lojas de marca. O fato de ter 16 anos ( Emma tem 21) a torna ainda mais sem noção ( ou clueless, como no título original).

Estudando num colégio que consegue ter uma hierarquia tão rígida quanto a inglesa do tempo de Jane Austen, Cher tem o mérito de ser a garota mais popular, e resolve usar isso em proveito dos que ela considera mais necessitados. Isso inclui bancar o cupido pra dois professores losers ( o que pode ajudá-la a aumentar suas próprias notas) e para uma aluna nova e esquisita para os seus padrões.

Assim como Emma, Cher também tem uma ” voz da consciência”, que no  caso é o seu “meio irmão” Josh ( na verdade filho da sua ex-madrasta), com quem ela voltou a dividir a casa por ele pretender seguir os passos do Sr. Horowitz ( que é advogado). O destino deles acaba sendo quase o mesmo de Emma e Mr Knightley.

Apesar de gostar bastante de Bridget, confesso que Cher é minha favorita, já que está num filme que eu considero melhor, e com diálogos quase tão sarcásticos e engraçados como os de “Emma”. Agora fico só devendo minha opinião sobre Nem Prada nem nada ( From Prada to nada, 2011), que é uma versão moderna de ” Razão e Sensibilidade”. Mas antes preciso assistir.

Pra mais do universo Jane Austen, ver esses blogs aqui aqui:

Jane Austen Brasil       

Jane Austen Br      

bitchinabonnet.blogspot.com.br

Anúncios

6 thoughts on “Jane Austen e o legado da comédia romântica (parte 2)

  1. Pingback: Jane Austen e o legado da comédia romântica (parte 1) « O filme da tarde

  2. Pingback: Crown, O Magnífico (1968) « O filme da tarde

  3. Pingback: Como estragar seu filme com uma trama romântica (em 3 lições) « O filme da tarde

  4. Pingback: Pare esse casamento! « O filme da tarde

  5. Pingback: Faça SPAM…mas não faça SPOILER! | O filme da tarde

  6. Pingback: Como estragar seu filme com uma trama romântica (em 3 lições) | O filme da tarde

Deixe seu palpite aqui. O poder é de vocês!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s