Jane Austen e o legado da comédia romântica (parte 1)

Não deixe de ler a segunda parte desse post

Existem gêneros que conseguem ser odiados por uns na mesma intensidade com que são amados por outros, e esse certamente é o caso da comédia romântica. São os filmes considerados como chick flicks (ou “filmes de mocinha”) por excelência, aqueles que supostamente só um ser humano com muito estrogênio no corpo conseguiria assistir.

Não dá pra negar que muitas coisas horríveis entram nessa categoria, aqueles que não dão um passo além da cartilha, com uma narrativa engessada, personagens rasos, situações artificiais, coadjuvantes que deveriam ser engraçados mas não são e uma grande forçação de barra pelo final feliz. 

Enfim, quase todos os filmes que a Katherine Heigl tem feito nesses últimos anos (e eu torço pra que ela consiga sair dessa).

Mesmo assim, se considerarmos os filmes que combinem como elementos principais “comédia” e ” romance” acabamos tendo muitos que realmente valem a pena, como boa parte da obra do Woody Allen, e alguns  do Steve Carel e da Julia Roberts.

Não acho que a comédia romântica seja um mal em si mesmo, mas ela acaba servindo muitas vezes pra perpetuar a visão de que as mulheres dedicam cada minutinho da sua vida a encontrar ( e conservar) um homem, enquanto que esse mesmo homem tem mais o que fazer. Nesses casos, mesmo  sendo os filmes com mais protagonistas e personagens femininas, elas nem conversam muito entre si sobre assuntos que não sejam  beleza e como agarrar o tal sujeito.

Aparentemente, essa ideia teria tudo a ver com a obra da escritora inglesa Jane Austen, já que ela mesma viveu entre os séculos 18 e 19,  quando a única redenção feminina possível seria através do casamento. Para isso, as mulheres se preparavam a vida inteira, adquirindo talentos “pega-marido” como desenhar e tocar piano. 

As inúmeras adaptações cinematográficas dos seus livros podem fazer parecer mesmo que  são só manuais de como encontrar o homem perfeito. Felizmente eles acabam indo muito além.

Eu comecei a ler Jane Austen por ” Orgulho e Preconceito”, até hoje o meu favorito, e estou perto de ter lido todos os seis, assim que terminar “Northanger Abbey”. O que posso dizer é que me senti praticamente vivendo também naquele ambiente restrito, quase claustrofóbico, em que as mulheres daquele período passavam boa parte das suas vidas.

Numa época em que nem sua  capacidade de raciocínio pleno era consenso (o “Emílio” de Rousseau, obra contemporânea, considerava a mente feminina inferior à masculina), as protagonistas lutavam pelo direito de autodeterminação, de poderem decidir se e com quem casar , mesmo com a ameaça da pobreza batendo à porta, já que as leis inglesas de herança favoreciam os homens e os trabalhos reservados às mulheres só permitiriam uma vida miserável. Acabar “solteirona” nesse contexto era mais que um estigma social ou condição de infelicidade, era quase a garantia de uma vida cheia de dificuldades e com a dependência da caridade alheia.

Entre um baile e outro, a gente vai também conhecendo mais a sociedade daquele tempo, os nobres de nariz em pé, as mães desesperadas pra casar suas filhas, as redes de fofocas, os pais relapsos, os casamentos por dinheiro, as moças que só têm uma aparência de erudição, entre outros. Tudo isso com humor, ironia, e a crítica mordaz que tonaram o estilo da autora tão conhecido.

Jane Austen é considerada uma das grandes influências para a formação do gênero da comédia romântica, junto com Shakespeare (com peças como “A Megera Domada”, ” Sonho de uma noite de verão” e “Muito barulho por nada”). Além deles, foram fundamentais também os gêneros teatrais  da comedy of manners” ( comédia de costumes) e da farsa. 

Aliás, eu consigo imaginar poucas coisas mais farsescas que a ótima comédia romântica Só Você (Only you, 1994).

Voltando a Austen, acho que duas de suas grandes contribuições acabaram se tornando até clichês: o casal que briga o tempo todo mas no fim das contas descobre que se ama; e protagonista que só descobre no fim das contas que o seu grande amor era o amigo (ou amiga) que estava ao seu lado o tempo inteiro. Como exemplos do primeiro estão Vestida pra Casar (27 dresses, 2008) e Mensagem pra você (You’ve got mail, 1998); e do segundo,  Poção de Amor nº 9 ( Love Potion nº 9, 1992) e  Harry e Sally: feitos um pro outro (When Harry met Sally, 1989).

Eu pretendo falar mais desses livros e filmes, principalmente alguns que contém essas ideias aí acima, mas isso fica pra Parte 2. Por enquanto, deixo um vídeo pra tornar o post menos “mulherzinha”.

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6 thoughts on “Jane Austen e o legado da comédia romântica (parte 1)

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