Moonrise Kingdom (2012)

Talvez seja possível dizer que a fase de transição da infância pra adolescência seja aquela em que mais queremos ser levados a sério, e justamente quando isso menos acontece. Com uns 12 ou 13 anos eu tinha problemas que  considerava  imensos e insuperáveis, só consoláveis pelos livros dramáticos que eu costumava ler na época (“O morro dos ventos uivantes” era um dos favoritos).

Quando eu releio as coisas que eu escrevia nesse tempo não consigo deixar de rir com toda aquela pretensão de importância mas, ao mesmo tempo, sinto bastante carinho por aquelas frases cheias de mesóclises e construções rebuscadas. E quem sou eu hoje em dia pra dizer que tudo aquilo era bobagem?

my-girl-1991É mais ou menos essa a ideia de Moonrise Kingdom: contar uma história de amor  entre crianças/adolescentes com toda a seriedade que eles atribuem a si mesmos, ao contrário de filmes como Meu primeiro amor (My Girl, 1991) e ABC do Amor (Little Manhatan,2005),  ambos também sobre puppy lovemas que têm um olhar mais indulgente, do adulto em que esses meninos iriam se tornar.

Aqui o resultado acaba sendo mais próximo de Quando as metralhadoras cospem (Bugsy Malone, 1976),  um filme de gângster feito com crianças que não estão brincando, mas realmente acreditam nos papéis que desempenham. Que o diga a então jovem Jodie Foster, uma perfeita femme fatale dentro dos limites de um filme de classificação livre.

bugsy malone

Não sou muito entendida da filmografia de Wes Anderson, só assisti Os Excêntricos Tenembaums (The Royal Tenembaums, 2001) há vários anos, e deve ter me marcado muito pouco, porque não me lembro de quase nada. Mesmo assim, sei que ele é um dos responsáveis pela popularização dos personagens Quirk no cinema, aquelas pessoas estranhas, excêntricas, desajustadas, que geralmente aparecem em narrativas tragicômicas.

Em Moonrise Kingdom são assim os dois personagens principais, um casal apaixonado de 12 anos que  planeja a própria fuga juntossuzy-moonrise kingdom depois de um primeiro encontro rápido e várias trocas de cartas. A menina, Suzy (Kara Hayward), é uma “criança problema” nos moldes do Antoine Doinel dos Incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959). 

Assim como o personagem de Truffaut, Suzy não se relaciona bem com os pais, é agressiva, deprimida, comete pequenos delitos, testemunha a infidelidade da mãe e usa a literatura como válvula de escape (Doinel usava o cinema).

sam moonrise-kingdomJá o menino, Sam (Jared Gilman) é o típico herói dos livros de Charles Dickens, o órfão negligenciado por seus guardiões,  que não se corrompe pelo sofrimento, e que deve fugir de um destino terrível (no caso dele, a transferência pra um orfanato e uma possível terapia com eletrochoque).

Quando enfim se encontram pra início de viagem, vemos que, além de solitários e inadaptados, os dois tem pouco em comum,  Sam se mostra mais prático por já ter enfrentado situações mais difíceis e por ter treinamento escoteiro, enquanto que Suzy tem a sua primeira aventura e traz vários itens que poderiam ser considerados supérfluos.

Um dos pontos altos do filme é justamente mostrar a convivência dos dois, meio inibida de início, cheia da dignidade e inocência próprias da idade. Ao mesmo tempo, eles têm o comecinho do que se poderia chamar de experiência sexual, com cenas que conseguem ser diretas e delicadas ao mesmo tempo.

As outras crianças, talvez com exceção dos três irmãos menores de Suzy, que são realmente bem pequenos, também são tratados (emoonrise-kingdom-movie-image-01 se tratam) com seriedade. Os  meninos do acampamento de escoteiros de onde Sam havia fugido iniciam uma busca pelo casal que lembra  um filme de guerra, um faroeste ou um filme de gangues (eles até têm os apelidos típicos, como “Caolho”).

Quando perguntam ao chefe ( Edward Norton) se podem usar violência caso o fugitivo resista à “prisão”, e recebem uma negativa horrorizada, parecem surpresos com o que deveria ser, pra eles, uma conduta natural.

Boa parte do humor do filme vem dessa inversão de expectativas, já que em outros momentos eles também demonstram uma forte noção de honra e se mostram mais nobres do que os adultos à sua volta ( especialmente um certo homem que se infantiliza ao se aproveitar da necessidade dos meninos).

Se a jornada do jovens é mostrada como legítima pelo filme, e não como um ato ingênuo de insubordinação, os adultos, por outro lado,  são retratados como  frágeis e imaturos. Os pais de Suzy ( Frances Mc Dormand e Bill Murray) têm um casamento apático e artificial e a mãe mantém ( ou mantinha?) um caso melancólico e sem esperanças com o amargurado chefe de polícia local ( Bruce Willis).

Além deles temos também o chefe dos escoteiros  que não tem controle sobre as crianças de quem deveria cuidar e que se sente diminuído diante de um questionamento infantil  sobre sua profissão ( ” É preciso ter PhD pra ser professor de matemática de colégio?”). A personagem de Tilda Swinton por outro lado, (que nem tem nome, só é chamada de “Serviço Social”) representa o mal que se apresenta na forma de cuidado e correção, principalmente por estar só “cumprindo o seu dever”.

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Em contraponto aos temas mais sérios, o filme se passa naqueles anos 60 imaginários que só quem nunca viveu aquela época consegue realmente vislumbrar ( meu caso e do próprio Wes Anderson, que nasceu em 69). A fotografia é meio “efeito Instagram”  granulada e com cores saturadas, e as construções da ilha fictícia onde se passa a história se parecem com casas de bonecas ou peças de Playmobil.

Os objetos também parecem de brinquedo, como a mala amarela  de Suzy,  o toca discos azul “emprestado” do irmão, e as roupas que ela usa. Pra completar, a trilha sonora retrô tem como ponto alto ” Le Temps de L’amour”, da cantora  Françoise Hardy, cujo disco Suzy havia ganhado de uma tia que morava na França. E que filme indie americano estaria completo sem pelo menos uma música em francês? Felizmente, o estilo aqui não serve só a um preciosismo vazio, mas contribui com a narrativa.

moonrise kingdom dance

Por fim, em Moonrise Kingdom são os adultos que precisam das crianças pra amadurecer, e não o contrário. Eles só estão no poder por serem autoridades, e não por terem razão, como em certo momento o personagem do Bruce Willis reconhece,  enquanto oferece bebida ao menino Sam, como se conversasse com um igual. E se  formalmente o chefe de polícia acabe adotando o garoto, é o adulto que acaba por ser verdadeiramente adotado.

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