O que terá acontecido a Baby Jane? (1962)

Há cinquenta anos, a situação no cinema americano não estava muito fácil pra atrizes veteranas, mesmo pra oscarizadas como Bette Davis e Joan Crawford.  As duas famosas arqui-inimigas tiveram então que aceitar contracenar em ” O que terá acontecido a Baby Jane” ( What ever happened to Baby Jane?),  o precursor do gênero “psycho-biddy” ( algo como “velha doidona”), em que mulheres mais velhas apareciam em condições extremas de loucura e  perigo (ou perigo de loucura) e que chegou a ser popular nos anos 60 e 70.

O resultado acabou sendo mais ou menos como observar atrizes como Fernanda Montenegro e Beatriz Segall espremendo seu talento pra caber nas novelas da Globo, e não por acaso: ” Baby Jane” é tão novelesco em sua forma e conteúdo que pelo menos duas de suas cenas foram copiadas quase integralmente em folhetins nacionais.

Tudo começa em 1917, quando a então criança prodígio do vaudeville Baby Jane Hudson encanta plateias com suas músicas açucaradas e danças fofinhas, chegando a ser  popular a ponto de ter sua própria linha de bonecas. Anos depois, entretanto, sua transição pro cinema acaba não fazendo o mesmo sucesso, e é a vez da sua irmã Blanche Hudson, até então o patinho feio da família, brilhar nas telas.

A carreira de Blanche acaba também sendo interrompida anos depois, mas por um acidente de carro (provocado por sua irmã)  que a deixa paraplégica.  Já no tempo presente ( anos 60)  Jane ( Bette Davis) e Blanche (Joan Crawford), vivem juntas numa mansão e em mútua dependência: Jane, amargurada e alcoólatra, precisa de dinheiro e Blanche, cadeirante e inexplicavelmente vivendo numa casa de dois pavimentos, precisa de cuidados.

As duas irmãs têm saudade de tempos mais felizes, mas enquanto que o saudosismo de Blanche é mais saudável ( já que ela não vive no passado, teve uma carreira na fase adulta, ainda é lembrada com carinho pelos fãs e parecia realmente ter algum talento) Jane vive deslumbrada com o seu curto período de glória, do qual ninguém mais se lembra e que se devia muito mais à sua condição de estrela mirim do que a méritos próprios ( ao menos a menininha que a interpreta nessa fase desafina loucamente).

Daí que Blanche acaba sendo estabelecida como a “mocinha” da história, compreensiva, amiga da empregada, vulnerável e doce, ao passo que Jane é a bêbada que tem surtos psicóticos e delírios de grandeza, além de ser mal educada com os vizinhos, estelionatária e, a partir de certo ponto do filme, torturadora da irmã. Tudo isso usando uma maquiagem a la Coringa e roupas semelhantes às da sua infância.

O que se segue é um roteiro preguiçoso e uma direção cheia de clichês, com closes que subestimam a inteligência do espectador ( reafirmando a importância de certos elementos em cena), música de fundo irritante ( que chega a pontuar até a dúvida de certo personagem) e situações  inverossímeis que servem pra aumentar a tensão. Por que ninguém liga pra polícia nesse filme quando tem oportunidade? Como pensar que alguém possa, numa situação crítica, virar as costas pra uma personagem perigosa? E como explicar que uma personagem, até então bastante esperta, possa engolir facilmente uma desculpa esfarrapada?

Mas o que eu acredito que torne esse filme um clássico mesmo é a interpretação de Bette Davis, que nos faz ter mais pena que raiva da pobre Baby Jane e suas tentativas patéticas de reviver o passado. Além disso, as oscilações de humor e comportamento fazem dela mais humana e mais complexa,  mesmo cometendo maldades dignas da Usurpadora.

A gente  acaba  se compadecendo mais do sofrimento dela, por ter perdido o pai, por acompanhar o próprio envelhecimento, por ter sido  esquecida, do que das situações de donzela em perigo vividas pela Joan Crawford ( uma boa atuação num papel ingrato).

As cenas finais acabam sendo bastante tocantes, mesmo quase sendo prejudicadas pelo tal “final surpreendente”, já copiado em uma novela bem famosa. ( SPOILER SPOILER  Quem já assistiu “Vale Tudo” sabe que a Heleninha Roitman não foi a responsável pelo acidente de carro que matou o irmão. Na verdade ela estava tão bêbada que a sua mãe, Odete Roitman, a verdadeira culpada, aproveitou pra responsabilizar a filha e a fez carregar uma culpa indevida por vários anos, já que Heleninha não se lembrava de nada. É só trocar Heleninha por Jane e Odete por Blanche, e a morte  por paraplegia).

 A outra cena copiada em novela é essa aqui:

http://globotv.globo.com/rede-globo/fina-estampa/v/cena-1211-tereza-cristina-serve-rato-morto-para-patricia/1694681/

Infelizmente, não dá pra dizer que a situação de atrizes mais velhas em Hollywood tenha melhorado hoje em dia. Alguém consegue se lembrar de uma protagonista com mais de 50 anos que não seja a Meryl Streep?

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3 thoughts on “O que terá acontecido a Baby Jane? (1962)

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