E no princípio eram os créditos

Dracula

Decidir como usar os preciosos minutos do começo de um filme  envolve lidar com duas necessidades conflitantes: a de envolver o espectador logo de cara e a de creditar ao menos os principais nomes envolvidos na produção.

É possível  usar os extremos, ignorando os créditos de abertura pra focar na história sem interrupções ( como os Batmans do Nolan), ou parando tudo pra ceder espaço a um desfile de nomes ( como o estilo das produções mais antigas de Hollywood ou do Woody Allen, que faz isso até hoje).

 Nestes casos, é possível ou que fique a sensação de falta de informações ( ” quem é que fez esse filme mesmo?”) ou de tédio por sermos apresentados a tantas pessoas quando geralmente só conhecemos umas três ou quatro. Daí que a maior parte dos filmes tenta conciliar as duas coisas, com animações, montagens frenéticas, números musicais, ou outros recursos enquanto rolam os créditos.

Pra mim, os mais interessantes acabam sendo os que já introduzem diretamente à narrativa, num ritmo mais lento, pra que possamos prestar atenção em tudo que está na tela, mas sem deixar de  fornecer informações importantes para o que vem a seguir.

Estes são alguns dos meus favoritos:

A primeira noite de um homem (The Graduate) 1967

Enquanto ouvimos “The Sound of Silence” , o que por si só dá um grande efeito, já somos apresentados a um sujeito pensativo e preocupado numa esteira rolante de aeroporto. O “tempo perdido” dessa abertura ( procedimentos de desembarque pra ele, créditos iniciais pra nós) acaba sendo gasto em especulação sobre o que ele está pensando, ou sobre o que virá depois.

O iluminado (The Shining ) 1980

Num travelling aéreo sobre uma região de vales e montanhas, vemos um fusca passando numa estrada estreita. O carro parece tão pequeno diante desse cenário tão grandioso, e pra onde quer que ele esteja indo, é longe o suficiente pra que  leve todo o tempo dos créditos pra chegar. Quando enfim vemos que o destino é um hotel, não podemos deixar de pensar no quão isolado ele está, e em como daria trabalho sair de lá numa situação de emergência.

Ghost World-Aprendendo a viver ( Ghost World) 2001

Quem poderia estar assistindo a um número musical tão kitsch quanto animado nesse bloco de apartamentos? Certamente  nenhum desses vizinhos apáticos e conformados com o que parecem ser vidas entediantes. A resposta vem quase no fim, quando vemos um quarto retrô, uma tv ligada e uma adolescente dançando. A música é ” Jaan Pehchaan Ho”, de um filme indiano dos anos 60 ( e que tocou recentemente em uma propaganda da Heineken),  provavelmente não o tipo de coisa que se ouve todos os dias num subúrbio proletário americano.

A Fantástica Fábrica de Chocolate ( Willy Wonka and the Chocolate Factory) 1971

As imagens de uma linha de produção de chocolate estão lá por um único motivo: nos dar uma vontade desesperada de consumir aquelas barras. Detalhes como o acréscimo de nozes, wafers e o próprio pó de cacau só fazem tornar ainda mais desejáveis esses produtos Wonka. Tim Burton fez algo parecido no seu remake, ( com um efeito mais sombrio) mas usou uma sequência de computação gráfica que acabou já nascendo datada.

Pra mais créditos,vale a pena ver o Art of the title , que além de variado tem também comentários.

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3 thoughts on “E no princípio eram os créditos

  1. Pingback: A primeira noite de um homem (1967): o enigma de Mrs. Robinson | O filme da tarde

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